A Guerra não tem Rosto de Mulher de Svetlana Alexievich

  • Editora: Elsinore 
  • Páginas: 400
  • Género: Não Ficção/ Segunda Guerra Mundial
  • Ano da Primeira Publicação: 1985

Classificação: 5/5 

Gosto de ler livros de não ficção… mas não todos. Por tratar de um tema, geralmente verídico, o livro de não ficção tem, para mim, de ser direto, descritivo q.b. e escrito com alguma técnica de ficção. Isto porque facilmente um livro de não ficção se torna aborrecido e falha, assim, em proporcionar ao leitor uma experiência prazerosa.

Até há duas semanas atrás, se tivesse de dar um exemplo de um livro de não ficção bem escrito escolheria, unicamente, o In Cold Blood de Truman Capote. Hoje, posso acrescentar outro exemplo: A Guerra não tem Rosto de Mulher de Svetlana Aleksievitch.

Nesta obra-prima, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de mulheres que, obrigadas pelo contexto político da época, lutaram na Segunda Guerra Mundial. Num estilo pungente, são-nos apresentados testemunhos de mais de 200 mulheres soviéticas que passaram de filhas, mães, irmãs e noivas a atiradoras, condutoras de tanques ou enfermeiras em hospitais de campanha. O seu relato não é uma história de guerra, nem de combate; é, ao invés, uma história de seres humanos simples que se viram catapultados “da sua vida simples para a profundeza épica de um enorme acontecimento”. Em que pensavam? De que tinham medo? Como foi aprender a matar? É sobre isto que as interlocutoras de Svetlana falam, mostrando uma faceta do conflito sobre a qual não se escreve – a sujidade, o frio, a fome, a violência sexual, a angústia e a sombra permanente da morte. Porque o verdadeiro heroísmo esteve na sua própria decadência enquanto combatentes e, posteriormente, na forma como foram recebidas e ignoradas pelo seu próprio país. 

A Guerra não Tem Rosto de Mulher, a marcante obra de estreia de Svetlana Alexievich, foi originalmente publicada em 1985, depois de quatro anos de pesquisa e entrevistas. A edição portuguesa, publicada pela Editora Elsinore, corresponde ao texto fixado em 2002, quando a autora reescreveu o livro e incluiu novos excertos com uma força que, antes, a censura não lhe tinha permitido mostrar. Esta é uma obra de vozes femininas sobre a presença das mulheres na frente do maior conflito bélico, até à data, registado.   

Escrito com incrível sentimento, a obra de Svetlana Alexievich, Prémio Nobel da Literatura 2015, é ímpar e recheada de vozes femininas sonantes. Uma leitura incrível que permite um maior contacto com factos da Segunda Guerra Mundial, contados por quem lá esteve. Cerca de um milhão de mulheres lutou no Exército Vermelho. O projeto que veio a dar origem a este livro iniciou-se quando Alexievich leu um artigo num jornal de Minsk que sobre uma festa organizada para homenagear uma contabilista prestes a entrar na reforma. Segundo a notícia, essa mesma contabilista havia recebido várias condecorações militares em decorrência do serviço militar prestado durante a Segunda Guerra Mundial onde, na qualidade de sniper, foi responsável pela morte de 75 pessoas. A guerra, percebeu a Autora, era, raramente, contada sob a perspetiva feminina. Assim, procurando contar as histórias reis de seres humanos que lutaram na frente, a Autora pretendeu mostrar que não há nada de heróico na guerra. Pelo contrário, o conflito armado merecia ser mostrado como verdadeiramente era – e ainda é – fonte de destruição e loucura. 

“Não, ela é soldado. Volta a ser mulher depois da guerra”.

Em Portugal, o livro está publicado pela Editora Elsinore e tem um custo médio de 20€. Deixo, a este propósito uma nota relativa ao excelente trabalho de revisão e tradução feito no livro. Nem, sempre, infelizmente, é dado o devido crédito a quem merece.

Queres ler este livro? Podes encontrá-lo aqui.

2 thoughts on “A Guerra não tem Rosto de Mulher de Svetlana Alexievich

  1. […] Nesta obra-prima, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Num estilo pungente, são-nos apresentados testemunhos de mais de 200 mulheres soviéticas que passaram de filhas, mães, irmãs e noivas a atiradoras, condutoras de tanques ou enfermeiras em hospitais de campanha. O seu relato não é uma história de guerra, nem de combate; é, ao invés, uma história de seres humanos simples que se viram catapultados “da sua vida simples para a profundeza épica de um enorme acontecimento”. Um excelente presente para qualquer leitor. Opinião aqui. […]

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  2. […] Nesta obra-prima, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Num estilo pungente, são-nos apresentados testemunhos de mais de 200 mulheres soviéticas que passaram de filhas, mães, irmãs e noivas a atiradoras, condutoras de tanques ou enfermeiras em hospitais de campanha. O seu relato não é uma história de guerra, nem de combate; é, ao invés, uma história de seres humanos simples que se viram catapultados “da sua vida simples para a profundeza épica de um enorme acontecimento”. Um excelente presente para qualquer leitor. Opinião aqui. […]

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