As Dez Figuras Negras de Agatha Christie

Um livro magnífico a ser lido e preservado por todos os amantes do género. 

Publicado em 1939, a par das aventuras do Inspector Poirot, As Dez Figuras Negras é dos mais conhecidos policiais de Agatha Christie. A narrativa é atmosférica aliando o crime ao cenário, simultaneamente, obscuro e vívido.  Foi a minha estreia com a Autora britânica e não poderia ter desejado livro mais glorioso. 

Em 1930, oito aleatórias personagens chegam a uma ilha isolada na costa britânica, a convite de um desconhecido e milionário casal, os Owen. São as mesmas um recém-reformado juiz, Lawrence Wargrave; uma secretária Vera Claythorne; um mercenário, Philip Lombard; um médico Edward Armstrong; um ex-polícia, William Blore; uma beata, Emily Brent; um velho general do exército inglês, John Maccarthur e um bom vivant de nome Anthony Maarston.     

Cada uma destas invulgares personagens recebeu um convite customizado e irrecusável que, de alguma forma, respondeu aos seus desejos e/ou necessidades. Assim, todas acabaram atraídas pela curiosidade e noção de fortuna, luxo e poder. O tiro acaba por lhes sair pela culatra e o que seria um fim-de-semana de sonho, cedo, se revela um pesadelo. Desde logo, o casal Owen não está presente para receber os seus convidados tendo, ao invés, mandatado para o efeito, o casal Ethel e Thomas Rogers, cozinheira e mordomo da mansão. Depois, cada um dos quartos tem um curioso poema:

"Ten little Soldier Boys went out to dine;
One choked his little self and then there were nine.
Nine little Soldier Boys sat up very late;
One overslept himself and then there were eight.
Eight little Soldier Boys travelling in Devon;
One said he'd stay there and then there were seven.
[15]
Seven little Soldier Boys chopping up sticks;
One chopped himself in halves and then there were six.
Six little Soldier Boys playing with a hive;
A bumblebee stung one and then there were five.
Five little Soldier Boys going in for law;
One got in Chancery and then there were four.
Four little Soldier Boys going out to sea;
A red herring swallowed one and then there were three.
Three little Soldier Boys walking in the zoo;
A big bear hugged one and then there were two.
Two little Soldier Boys sitting in the sun;
One got frizzled up and then there was one.
One little Soldier Boy left all alone;
He went out and hanged himself and then there were none."

Por último, durante o jantar, os convidados são confrontados com graves acusações sobre atos que, há muito, julgavam esquecidos.  À medida que noite e tempestade se encontram, cada um acaba por encontrar seu terrível fado.

As Dez Figuras Negras é, na minha opinião, o policial perfeito. A tónica está nos elementos certos, as reviravoltas atraem o leitor e o mistério é impossível de desvendar. Todas as personagens são, simultaneamente, suspeitas e vítimas numa narrativa brilhante que não se prende a detalhes desnecessários, procurando, antes oferecer uma sucessão de eventos incríveis que levam o leitor a duvidar da sua própria inteligência. O livro assemelha-se muito a um puzzle de dez peças. É nos dado o cenário, o número de personagens e o fim de cada uma delas, Cabe-nos a nós encontrar uma explicação racional para tudo o que nos vai sendo contado, sendo certo que não está mais ninguém na ilha. A claustrofobia é palpável assim como o medo, personagem central da trama, que não deixa os seus companheiros de cena – em o leitor – dormir.  Igualmente crucial é o cenário. À semelhança de uma sinfonia, a tensão vai crescendo à medida que uma imprevista tempestade invade a ilha. Afinal, nada seria possível senão estivéssemos numa ilha remota, acessível, única e exclusivamente, através de um barco que lá vai uma vez por dia e se o tempo assim o permitir. 

A crítica aponta O Assassinato de Roger Ackroyd como o melhor livro de Agatha Christie. No segundo lugar no ambicionado pódio, surge As Dez Figuras Negras pela genialidade do enredo e final surpreendente. Nunca tendo lido O Assassinato de Roger Ackroyd, não posso tecer comparações. Posso, sim, assegurar que será a minha próxima leitura de Christie. É que se eu já acho o segundo perfeito, imaginem o primeiro… 

Sobre o livro:

Dez desconhecidos, que aparentemente nada têm em comum, são atraídos pelo enigmático U. N. Owen a uma mansão situada numa ilha da costa de Devon. Durante o jantar, a voz do anfitrião invisível acusa cada um dos convidados de esconder um segredo terrível, e nessa mesma noite um deles é assassinado.
A tensão aumenta à medida que os sobreviventes se apercebem de que não só o assassino está entre eles como se prepara para ir atacando uma e outra vez…
O que se segue é uma obra-prima de terror. À medida que cada um dos hóspedes é brutalmente assassinado, as suas mortes vão sendo “celebradas” através do desaparecimento de uma de dez estátuas, as “dez figuras negras”.
Restará alguém para um dia contar o que de facto se passou naquela ilha?

Em As Dez Figuras Negras, a Ilha do Negro, local sombrio e desde sempre povoado de mistérios, é palco de uma estranha e implacável forma de justiça, na qual as vítimas se encontram encurraladas pelas circunstâncias e o agressor é invisível e omnipresente. Na colecção das Obras de Agatha Christie iniciada por Edições ASA, este é o primeiro romance em que não figura nenhum detective ou personagem determinante para a (surpreendente) solução dos crimes. In Wook.

Sobre a Autora:

Agatha Christie nasceu Agatha May Clarissa Miller, em Torquay, na Grã-Bretanha, em 1890. Durante a I Guerra Mundial, prestou serviço voluntário num hospital, primeiro como enfermeira e depois como funcionária da farmácia e do dispensário. Esta experiência revelar-se-ia fundamental, não só para o conhecimento dos venenos e preparados que figurariam em muitos dos seus livros, mas também para a própria conceção da sua carreira na escrita. Com o seu segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan, Agatha viajaria um pouco por todo o mundo, participando ativamente nas suas escavações arqueológicas, nunca abandonando contudo a escrita, nem deixando passar em claro a magnífica fonte de conhecimentos e inspiração que estas representavam.
Autora de cerca de 300 obras (entre romances de mistério, poesia, peças para rádio e teatro, contos, documentários, uma autobiografia e seis romances publicados sob o pseudónimo de Mary Westmacott), viu o seu talento e o seu papel na literatura e nas artes oficialmente reconhecidos em 1956, ano em que foi distinguida com o título de Commander of the British Empire. Em 1971, a Rainha Isabel II consagrou-a com o título de Dame of the British Empire. Deixando para trás um legado universal celebrado em mais de cem línguas, a Rainha do Crime, ou Duquesa da Morte (como ela preferia ser apelidada), morreu em 12 de janeiro de 1976. Em 2000, a 31st Bouchercon World Mistery Convention galardoou Agatha Christie com dois prémios: ela foi considerada a Melhor Autora de Livros Policiais do Século XX e os livros protagonizados por Hercule Poirot a Melhor Série Policial do mesmo século. In Wook.

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3 thoughts on “As Dez Figuras Negras de Agatha Christie

  1. […] Quando penso em presentes de Natal, este é o livro que me vem imediatamente à cabeça. Porque é instigante, atmosférico, curto e oferece um repertório de personagens inesquecível. Para muitos, é considerada a grande obra-prima de Agatha Christie e tendo a concordar, ainda que me falte ler vários outros livros da Autora. É, seguramente, um dos melhores policiais que eu já li na vida e indicado para mais novos – >15 – e graúdos. Opinião aqui. […]

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  2. […] Quando penso em presentes de Natal, este é o livro que me vem imediatamente à cabeça. Porque é instigante, atmosférico, curto e oferece um repertório de personagens inesquecível. Para muitos, é considerada a grande obra-prima de Agatha Christie e tendo a concordar, ainda que me falte ler vários outros livros da Autora. É, seguramente, um dos melhores policiais que eu já li na vida e indicado para mais novos – >15 – e graúdos. Opinião aqui. […]

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