Quatro Destinos Literários Improváveis…

Numa altura em que a nossa mente é a única autorizada a viajar, só nos sobra a arte e a imaginação para nos transportar para destinos mais ou menos exóticos. Foi com esse propósito que andei pela estante cá de casa à procura de destinos literários incomuns.

Já sabemos que as livrarias estão recheadas de livros sendo que os países onde as suas narrativas se passam, não podia ser mais diversos. Porém, todo o leitor tem tendência para se ir posicionando nos mesmos lugares. Assim, há quem privilegie Japão/China e a sua delicadeza; a Rússia com a sua literatura mais existencialista; os Estados Unidos da América e o atavismo político que está, geralmente, subjacente às suas obras; a América do Sul e o realismo mágico; Paris que, por si só, já é uma identidade literária; a literatura gótica do Reino Unido, etc. Da África e da Ásia, com exceção da China e do Japão, pouco nos chega. Claro que vamos celebrando Autores como a Nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie ou a Indiana Arundhati Roy, mas não são muitos os Autores que se tornam símbolo de vendas.

Há pouco tempo, alguém, em face de uma viagem à Polónia, me pediu recomendações de Autores e/ou livros com histórias passadas no país. Se o tema for Segunda Guerra Mundial e campos de concentração, não é difícil encontrar bons livros. Mas e se não for? A Polónia tem vida – e muita – para além da Guerra. E, tirando a Olga Tokarczuk – que só teve direito a lugar de destaque em Portugal porque ganhou o Nobel – não há assim muita coisa para se recomendar. Isto é, aos olhos de uma leitora de circunstância. como eu. Claro que alguém que se dedica a sério e estuda estas matérias, discordará, em absoluto e com razão, do meu entendimento. Este episódio, fez-me olhar para o meu histórico de leituras e perceber que: (1) ando sempre entre Europa do Norte, Estados Unidos e Ásia; (2) leio sempre sobre os mesmos acontecimentos e culturas; (3) quero muito mudar isso.

O que nos traz a este artigo onde, recorrendo às minhas mais recentes leituras e estante, venho deixar quatro destinos literários improváveis para leitores de circunstância, como eu. E são os mesmos:

  • África do Sul

The World that was Ours de Hilda Bernstein – Este romance autobiográfico aborda os anos que precederam a implementação do Apartheid, na África do Sul. Hilda Bernstein, escritora e ativista britânica, mudou-se aos 18 anos para Joanesburgo, em 1930, para fugir à ascensão do fascismo na Europa. Chegada ao país, a jovem britânica envolveu-se politicamente, primeiro com o Labour Party e, posteriormente, com o Parido Comunista. Perseguida politicamente, foi obrigada a abandonar o país, depois do marido ser condenado, ao lado de Nelson Mandela, no Julgamento de Rivona, em 1963.

  • Hungria

Satantango de László Krasznahorkai – Publicado em 1985, Satantango (Tango de Satanás, em Portugal), conta a história de uma pequena comunidade rural, na Hungria, que, certo dia, é confrontada com a chegada do misterioso Irimiás – demónio ou messias -, que se julgava morto. Esteve evento espoleta uma série de estranhos acontecimentos, levando o leitor a questionar-se sobre a crença em falsos profetas, a fé e a sua ligação com a própria sobrevivência do ser humano.

  • Indonésia

Homem-Tigre de Ela Kurniawan – Homem-Tigre é uma prosa lírica sobre a realidade da Indonésia rural com os seus preconceitos e lendas. O livro fala-nos de coragem, amor, esperança e heranças familiares, enquanto revolve o homicídio de Anwar Sadat, um artista lascivo e preguiçoso por Margio, um jovem doce e ágil. Com o propósito de explicar as motivações do homicida, o Autor percorre um pouco daquela que é a sua vida e ascendência, retratando uma Indonésia marcada por violência e pobreza, mas também sabedoria e sensibilidade.

  • Omã

Celestial Bodies de Jokha Alharthi – O Sultanato de Omã é um pequeno país localizado na foz do Golfo Pérsico que, apesar das interessantes reservas de petróleo, tem se destacado como um importante destino turístico. O país ocupa o 74.º lugar no índice dos mais pacíficos do mundo e, não obstante o seu regime político – monarquia absoluta -, enfrentou, nas últimas décadas, um enorme processo de modernização. Ora, Celestial Bodies (em PT: Corpos Celestes) foca-se, precisamente, nas mudanças sociais ocorridas em Omã no último século, adotando, para o efeito, distintas vozes, no seu próprio contexto temporal. Na pequena vila do Sultanato de Omã, al-Awafi, vivem três irmãs: Maya que casa com um noivo arranjado pelos pais, depois de um desgosto amoroso; Asma que casa em obediência a um sentido de dever e Khawla que rejeita todas as propostas de casamento enquanto espera pelo seu primo prometido que, anos antes, emigrou para o Canadá. Elegantemente construído, o livro percorre a vida destas três mulheres e das respetivas famílias que as mesmas vão construindo.

Boas Leituras!

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