As Bruxas de Salem de Arthur Miller

Uma peça de teatro poderosa sobre intolerância, histeria e o medo capaz de provocar as mais extraordinárias atitudes no ser humano comum.

Escrita em 1953, As Bruxas de Salem de Arthur Miller é uma peça de teatro sublime sobre os perigos da intolerância e abuso de poder, numa sociedade fundamentalista. Hoje, estudada amplamente nas escolas e universidades norte-americanas, é uma obra incontornávela da literatura norte-americana. Mas, por alturas da sua publicação, As Bruxas de Salem valeu uma audição do seu Autor no Comité de Atividades Anti-Americanas da Câmara dos Representantes.

Com efeito, a peça é uma imaginativa e não muito subtil crítica à Segunda Ameaça Vermelha, período da história dos EUA entre 1950 e 1957, onde as Autoridades Americana conduziram várias operações de repressão do movimento comunista que resutaram na acusação injusta de milhares de americanos de traição. Sobre isto, aconselho a leitura de um artigo escrito por Arthur Miller e publicado na revista New Yorker, onde, a este respeito, o mesmo diz:

“The Crucible” was an act of desperation. Much of my desperation branched out, I suppose, from a typical Depression-era trauma—the blow struck on the mind by the rise of European Fascism and the brutal anti-Semitism it had brought to power. But by 1950, when I began to think of writing about the hunt for Reds in America, I was motivated in some great part by the paralysis that had set in among many liberals who, despite their discomfort with the inquisitors’ violations of civil rights, were fearful, and with good reason, of being identified as covert Communists if they should protest too strongly.”

Arthur Miller traça um paralelismo entre os julgamentos de Salem, ocorridos a partir de fevereiro de 1692 no Massachusetts, e a Segunda Ameaça Vermelha. A peça surge dividida em 4 atos e tem como personagens vários habitantes de Salem que personificam acusados e acusadores. A narrativa revolve os julgamentos de John e Mary Proctor, casal de agricultores acusado da prática de feitiçaria. Na base da acusação está Abigail, jovem dissimulada que, em tempos, teve um caso com John Proctor, e um conjunto de outras meninas e adolescentes de Salem que, a certa altura, para se livrarem de um castigo corporal, inventaram fazer parte de uma aliança com o Diabo. Os seus relatos são aceites, sem mais, pela restante população da cidade que, movidos pela histeria, chamam o Reverendo Hale, especialista em bruxaria, e o Juiz Danforth, um déspota, que conduzirá os julgamentos, de forma implacável.

As Bruxas de Salem tem lugar numa sociedade teocrática, onde Igreja e Estado são uma só entidade e a religião, uma forma austera de Protestantismo chamada Puritanismo. As leis do Estado e da Moral são as mesmas e a preocupação com a alma do indivíduo é de ordem pública. Qualquer cidadão, que conduza a sua vida de forma distinta do que é socialmente aceitável, é uma ameaça não só ao bem comum, mas também à orientação divina. Há uma forte intolerância a tudo o que é diferente que se potencia através da histeria. Outro elemento importante da peça é a reputação. Mais uma vez, a moralidade pública e individual são uma só e, nessa medida, todas as personagens acabam por se conduzir em respeito a uma noção de controlo reputacional. Ninguém quer estar associado a uma “bruxa” e a melhor forma de se proteger é acusar. A lógica subjacente é a de que ou se está com o tribunal, ou se está contra o tribunal.

O tribunal domina todos os atos e tal e qual uma sinfonia, vai assumindo um lugar cada vez mais preponderante na narrativa. No terceiro ato, Miller oferta-nos um dos julgamentos mais angustiantes que ja tive o prazer de ler. Numa clara ausência de contraditório, vemos um Juiz egocêntrico abusar do seu poder contrariando prova e lógica. Ao acusado só restam duas hipóteses: ou confessa ou é condenado à morte.

Tremendamente envolvente, As Bruxas de Salem conquista pelos seus diálogos vívidos, personagens multidimensionais e crítica não muito subliminar. O ambiente é angustiante sendo magistral a forma como Miller transmite a paranóia e moralidade vigentes com as suas lúcidas visões políticas. Os julgamentos de Salem, à semelhança do que aconteceu no resto do mundo com a Inquisição, foi um claro exemplo das falhas de um sistema judicial dominado pela histeria e crença – seja religiosa, política, ambiental, etc. Não houve direito a defesa, procedimento ou, sequer, silêncio. Qualquer posição do acusado era indicadora da prática do crime sendo que tudo se baseou em nada. E esta insatisfação com a História – que se veio a repetir muitas vezes – domina toda a narrativa de Bruxas de Salem. Por essa razão, afianço que estamos perante uma peça extraordinária que merece todo o vosso tempo.

Sinopse Oficial do Livro:

One of the true masterpieces of twentieth-century American theater, The Crucible brilliantly explores the threshold between individual guilt and mass hysteria, personal spite and collective evil. It is a play that is not only relentlessly suspenseful and vastly moving, but that compels readers to fathom their hearts and consciences in ways that only the greatest theatre can.

Sinopse americana das edições Penguin Random House. Infelizmente, não há edição portuguesa disponível.

Sobre o Autor:

Arthur Miller (1915-2005) é um dramaturgo fundamental do teatro americano. Estreou-se em 1944 com The Man Who Had All The Luck, que ganhou um prémio da Theatre Guild mas foi um desastre de bilheteira com apenas quatro apresentações. Seguiu-se um romance sobre o racismo, Focus (1945). Mas terá sido com a estreia, em 1947, de Todos Eram Meus Filhos, com que recebeu o primeiro Tony, que o seu nome se afirmou mundialmente. A esse primeiro êxito seguiu-se, em 1949, Morte de Um Caixeiro Viajante (que recebeu mais um Tony, o prémio do Drama Circle e um Pullitzer), obra-prima que marcou todo o teatro do pós-guerra e que estabeleceu uma forte ligação com Elia Kazan, que, no entanto, veio a denunciá-lo como membro do Partido Comunista perante a HUAC. As perseguições do macartismo marcaram um dos seus títulos mais famosos, As Bruxas de Salém (1953). A essa experiência dolorosa seguiram-se Do Alto da Ponte (1955, revista em1956), o argumento para Os Inadaptados, filme de John Huston (1961) e Depois da Queda (1964), com que veio a reconciliar-se com Elia Kazan que, simbolicamente, dirigiu a peça na abertura do Lincoln Center. Depois desses triunfos mundiais e do seu casamento tormentoso (1956-1961) com Marilyn Monroe, a sua obra conheceu um certo declínio público, de que apenas emerge o êxito de O Preço (1968). E, no entanto, mais experimental, menos afirmativo, mais secreto, ele continuou a assinar obras cruciais como Incident at Vichy (1964), The American Clock (1980), Two Way Mirror (1982), The Last Yankee (1983), Broken Glass (1994) e Finishing The Picture (2004). Em 1987, publicou uma autobiografia, Timebends, por muitos saudada como um dos grandes testemunhos sobre Nova Iorque a partir da Guerra de Espanha. Toda a sua vida foi marcada por intensa actividade política em defesa das liberdades. In Cotovia.

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