Populismo – A Revolta Contra a Democracia Liberal de Roger Eatwell e Mathew Goodwin

Disclaimer: Livro enviado pela Editora Saída de Emergência, a meu pedido, para leitura e opinião. Tal facto não afeta, em nada, o que a seguir se expõe.

Uma obra informativa que oferece empatia a um eleitorado menosprezado e explicação a um dos mais controversos movimentos políticos dos últimos anos.

Roger Eatwell e Mathew Goodwin são dois académicos, de reconhecido mérito, no domínio da ciência política. O primeiro tem vasta obra sobre o fascismo e o populismo contemporâneo. O segundo é professor na Universidade de Kent, escreve para jornais como NY Times ou o FT e tem se dedicado ao estudo da volatilidade política no Ocidente. Populismo: A Revolta contra a Democracia Liberal é uma análise, a dois, sobre o crescimento do populismo no Ocidente focando-se, em especial, nas suas motivações e na caracterização do seu eleitorado envergonhado que clama por uma nova revolução política.


O livro de Eatwell e Goodwin oferece compreensão a um eleitorado, na opinião deles, subestimado e desprezado. Explicando que a eleição de Trump, a ascensão do nacionalismo na Europa ou o Brexit não são acidentes de percurso, os Autores acreditam que esta é uma revolução política contra tecnocratas e elites políticas que veio para ficar. Atribuir a ascensão de populistas controversos como Trump ou Le Pen a fatores como a Grande Recessão pós-2008, a crise dos refugiados pós-2014, ou a campanhas para uma eleição em particular, é redutor e falacioso. Igualmente o é, acreditar que o eleitorado de Trump regressará às correntes políticas predominantes assim que perceber que este é intelectualmente incapaz para ocupar a Presidência dos EUA ou aquando da exposição das suas ligações à Rússia ou que os eleitores que votaram no Brexit mudarão de ideias quando perceberem a crise que o país enfrentará com a saída da UE (no ano em que o livro foi publicado, Jair Bolsonaro não tinha sido, ainda, eleito presidente do Brasil). Tais factores foram apenas o rastilho numa divisão que faz parte do próprio tecido das nações ocidentais e que radica, sobretudo, nas “contradições entre o funcionamento da democracia ao nível nacional e um mercado económico cada vez mais global, uma longa e arraigada tradição de suspeita das massas em relação às elites, um latente e bastante disseminado sentimento nacionalista e a erosão a longo prazo da relação entre os cidadãos e os partidos.”

Mas o populismo não é a extrema-direita de outrora e aí reside a grande força desta obra de não ficção. Segundo os Autores, fascismo e populismo não são o mesmo movimento político, com nuances diferentes. A este respeito, e pegando nos exemplos de Trump, Le Pen e Salvini, dizem “Estas personagens não defendem o fim das eleições livres e justas nem aludem a querer concentrar o poder nas mãos de um ditador. Em vez disso, muitos defendem como algo positivo atribuir mais poder ao povo através de um modelo de democracia “estilo helvético”, um sistema de iniciativas populares e referendos associados ao Governo representativo.”, apresentando um pertinente quadro com as grandes diferenças entre populismo e fascismo:

Populismo

  • Vontade popular;
  • Pessoas simples e vulgares;
  • Elites corruptas e distantes.

Fascismo

  • Nação holística;
  • Homem novo;
  • Terceira via autoritária.

A distinção, muito bem explicada, não evita que se chegue à conclusão de que o populismo tem uma base nacionalista forte. Porém, nacionalismo não é, por si só, fascismo. Traçada esta distinção, os Autores caracterizam o eleitorado que esteve na base das maiores mudanças políticas dos últimos dez anos e projectam aquilo que poderá ser o pós-populismo. A conclusão é clara: “o nacional-populismo, seja qual for a forma que assumir, terá um forte impacto sobre as políticas de muitos países ocidentais durante muitos anos.” Menosprezar o seu eleitorado ou a suas ascensão, atribuindo-lhe um carácter passageiro, é um erro. No seu entendimento, o nacional-populismo foi um desenvolvimento político quase natural que encontrou conformação em “quatro D”: “Desconfiança” nas elites; “Destruição” da cultura nacional; “Despojamento” causado por uma economia desigual e “Desalinhamento” em relação aos partidos tradicionais.

A revisão da história política no pós-guerra, de Eatwell e Goodwin é informativa, clarificando temas importantes de teoria política, mesmo para os mais leigos. O foco está no eleitorado, ao invés dos líderes políticos, e isso cria um apelo muito interessante sobre o livro. Isto porque não se trata de traçar perfis de líderes populistas – que todos nós já conhecemos – mas, sim, de compreender quem são as pessoas que votam em políticos como o Trump ou a Le Pen, desafiando o status quo, há muito implementado. Apesar do carácter esclarecedor, convém perceber que este é um livro de opinião. Os Autores vão assumindo, em vários momentos, visões muito pessoais sobre as mudanças políticas sentidas, nos últimos anos. Assim, ao leitor é, naturalmente, exigível uma visão crítica do que está a ler. Porém, mesmo nesses momentos, é um livro muito rico porque a opinião manifestada é fundamentada e com a sustentação, vem o conhecimento, mesmo que o leitor dê, por si, a chegar a conclusões diametralmente opostas daquelas que lhe são apresentadas.

Um livro interessantíssimo e pertinente para ler e, acima de tudo, pensar.

Sinopse oficial:

Um livro fundamental sobre o fenómeno político mais importante do nosso tempo: o crescimento do populismo

O que está por detrás do crescimento do populismo no Ocidente? Quem apoia estes movimentos? E como é que vão transformar a política nos próximos anos?

Por todo o Ocidente há um número crescente de pessoas que se sentem excluídas da política tradicional e se mostram cada vez mais hostis com as minorias, os imigrantes e a economia neoliberal. Muitos destes votantes estão a voltar-se para movimentos populistas, que começaram a transformar a face das democracias liberais ocidentais, dos Estados Unidos a França, da Aústria ao Reino Unido.

Dizem-nos que esta mudança radical é o último grito desesperado de um eleitorado envelhecido e à beira da extinção. Que os seus líderes são fascistas e as suas políticas antidemocráticas. Mas esta versão simplista dos acontecimentos está longe da verdade.

Escrito por dois dos maiores especialistas em fascismo e populismo, esta obra resulta de uma profunda investigação e é o guia definitivo para compreender a transformação da nossa paisagem política. Desafiando o senso comum, Eatwell e Goodwin apresentam argumentos convincentes para um compromisso sério com os apoiantes e as ideias do populismo nacional – até porque esta é uma tendência que não será travada tão cedo.

Sobre os Autores:

Matthew Goodwin é professor de Política na Universidade de Kent e Senior Visiting Fellow em Chatham House. Publicou cinco livros e trabalhou com centenas de organizações em temas relacionados com a volatilidade política no Ocidente. Escreve regularmente para o The New York Times e o Financial Times.

Roger Eatwell é professor emérito de Política Comparada na Universidade de Bath. Tem vasta obra publicada sobre o tema do fascismo, especialmente sobre populismo contemporâneo. In saidadeemergencia.com

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Boas Leituras!

One thought on “Populismo – A Revolta Contra a Democracia Liberal de Roger Eatwell e Mathew Goodwin

  1. […] Na senda da não-ficção e tendo por foco alguém que se interesse por política e atualidade, não posso deixar de sugerir este livro fantástico de Roger Eatwell e Mathew Goodwin. Analisando as principais motivações do crescimento do populismo nas sociedade ocidental, os Autores, académicos de reconhecido mérito, alertam para os perigos de um eleitorado descontente e subvalorizado. Pelo meio, distinguem claramente populismo de outros movimentos políticos, numa leitura prazerosa e instrutiva. Opinião aqui. […]

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