Pais e Filhos de Ivan Turguéniev

Considerada a maior obra-prima de Turguéniev, Pais e Filhos oferece um olhar completo e profundo sobre a mentalidade russa do séc. XIX, confrontando gerações e classes.

Se me pedissem para definir a minha crença literária, diria: acredito que cada livro tem o seu tempo. Acho que isto da arte tem muito que ver com a oportunidade. A primeira vez que tentei ler Pais e Filhos foi em 2019, numa fase de mudança em que os receios e as dúvidas eram tantas que a mensagem do livro resumia-se a dúvida. A teoria niilista que lhe está subjacente estava a criar em mim tamanha melancolia que tive de parar a leitura. Isto porque a obra-prima de Turguéniev não nos poupa das grandes questões existenciais levando-nos, invariavelmente, numa reflexão que, em momentos de maior fragilidade, pode causar estragos. Por tudo isto, abandonei Pais e Filhos e só voltei a pegar-lhe este ano comprovando a minha teoria de que lido no momento certo, um livro pode ser verdadeiramente revolucionário.

No centro da narrativa surge Bazárov, um jovem niilista ambicioso e arrogante que nega tudo, menos o progresso científico. Bazárov acompanha o seu amigo, Arkádi que, por contraposição, é simples e gentil, numa visita ao pai deste, Nikólai, um latifundiário que vive com um irmão e uma jovem amante que pretende desposar. É nesta visita que a geração mais nova (filhos) conflitua com os conservadores (pais) numa discussão interminável sobre tudo. Por um lado Bazárov, revela uma total ausência de introspeção, por outro, Pásel, tio de Arkádi, acredita que sem princípios ou fé, não é possível dar “um passo, nem respirar”.

Em Pais e Filhos, Turguéniev retira Bazárov de um padrão auto-imposto para o confrontar com a realidade. Para o efeito, cria personagens profundas cujo maior inimigo é a vida em toda a sua imprevisibilidade e brevidade. Aqui não há certo, errado ou, sequer, herói – figura típica dos seu contemporâneos. Há, sim, uma prosa belíssima e incrivelmente bem escrita que coloca o leitor em estreita comunicação com os seus próprios sentimentos. Com particular tónica na filosofia niilista, esta é uma leitura complexa, na medida em que se pode revelar demasiado contemplativa , principalmente, para uma pragmática, como eu. Porém, mentiria se dissesse que Pais e Filhos não é um daqueles livros que, em cada palavra, esconde uma ideia que fica connosco dias, meses, anos depois da sua leitura. Mais do que ficção, Pais e Filhos, é um manifesto filosófico sobre as idiossincrasias da vida e a valoração (ou não) que cada um lhe atribui. 

“- Ele é um niilista – repetiu Arkádi.

– Niilista – disse Nikolai Petróvitch. – Isso vem do latim núbil, nada, tanto quanto julgo saber; portanto, essa palavra significa um homem que… que não reconhece nada?

– Diz antes que não respeita nada – disse Pável Petróvitch, e voltou a barrar manteiga.

– Que encara tudo de um ponto de vista crítico – observou Arkádi.

– E isso não é a mesma coisa? – perguntou Pável Petróvitch.

– Não, não é a mesma coisa. Niilista é um homem que não se curva perante nenhuma autoridade, que não tem fé em nenhum princípio, seja qual for o respeito que rodeia esse princípio…”

A obra de Turguéniev antecipa os grandes romances russos da segunda metade do século XIX. Dostoiévski e Tolstói eram admiradores confessos do Autor e há quem afirme que não fosse Pais e Filhos, os romances de um e outro não teriam tido lugar no espaço literário russo. Porém, aquando da sua publicação em 1862, Pais e Filhos causou grande reboliço. Por um lado, os conservadores russos acusavam Turguéniev de glorificar o niilismo e, dessa forma, a insubordinação. Por outro, as gerações mais jovens entendiam que não havia qualquer glorificação mas, ao invés, uma certa jocosidade relativamente aos seus ideais. A verdade é que nenhum leitor da altura encontrava no livro os seus próprios sentimentos refletidos o que dificultava o processo de empatia e identificação.

De uma forma ou de outra, é inegável a influência do Autor nos movimentos políticos que lhe sucederam, com particular incidência no surgimento do liberalismo. Falar da história russa do século XIX é também falar de Turguéniev e, por aí, percebemos que estamos perante uma obra literária grandiosa que comporta em si mesma o verdadeiro poder dos livros: o da transformação.

Sobre o Autor:

Ivan Turgueniev nasceu em Orel, no Império Russo, a 9 de Novembro de 1818. A sua obra-prima, Pais e Filhos, é considerada uma das grandes marcas do século XIX. Aos 25 anos, com a publicação de Parasha obteve, pela primeira vez, a atenção da crítica. Com os romances RudinGnedoDvorianskoe e Nakanune, deixa a sua marca literária com o mérito de ter sido o primeiro escritor russo com reconhecimento considerável na Europa Ocidental. É também conhecido como o inventor do termo nihilista, que aplicou ao protagonista do romance Ottsy I Deti e que acabou por chegar aos nossos dias com o significado de ausência de sentido, finalidade ou resposta, aplicado a áreas tão diversas como a arte, as ciências humanas, a literatura, a ética ou a moral. Em 1862, na sequência da publicação de Ottsy I Deti e da controvérsia à sua volta gerada, abandona a Rússia e, após passagens pela Alemanha e Inglaterra, estabelece-se em Bougival, arredores de Paris, onde acabaria por morrer a 3 de Setembro de 1883.

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Boas Leituras!

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