A um deus desconhecido de John Steinbeck

Se há livro que me parece subvalorizado no cômputo daquela que é a obra de John Steinbeck, é o A um deus desconhecido. Publicado em 1933, este romance – de natureza mística – demorou cinco anos a ser escrito tendo sido, para o seu Autor, uma obra assumidamente desafiante. O seu sucesso foi bastante medíocre quando em comparação com Vinhas da Ira, A Leste do Éden ou Ratos e Homens, este último, para muitos, o grande livro de Steinbeck. Não tendo ainda lido os títulos mencionados, posso afiançar que A um deus desconhecido é uma experiência literária absolutamente inesquecível.

De tempos a tempos, aparece um livro na minha vida que me revolve as entranhas. Aconteceu isso com O Som e a Fúria, 1984, Sei o que o Pássaro Canta na Gaiola, O Monte dos Vendavais e A Metamorfose. A esta lista, adiciono A Um Deus Desconhecido, um verdadeiro “tratado” existencialista que nos permite uma importante reflexão sobre a frágil condição humana, a compatibilidade com a natureza e a nossa própria relação com a fé.

Steinbeck apresenta-nos Joseph Wayne que, ambicionando ter a sua própria herdade, muda-se para a zona Oeste em busca de terra “barata e boa”. Após a morte do seu pai, Joseph começa a desenvolver uma estranha relação com uma imponente árvore do seu terreno, prestando-lhe homenagem e vassalagem. Os três irmãos que, entretanto, se mudaram para a sua terra beneficiam dos frutos deste culto de Joseph até que um deles, receando a ira do seu Deus católico, corta a árvore. A partir desse momento, uma estranha sucessão de acontecimentos catastróficos destrói, pouco a pouco, tudo o que Joseph conquistou e, por inerência, a sua própria vida.

O terceiro romance de Steinbeck – Prémio Nobel da literatura em ’62 – vai buscar clara inspiração à Bíblia, às grandes epopeias clássicas e ao paganismo, focando a narrativa na relação de um homem com a sua terra. Pautada por uma forte espiritualidade, a história de Joseph é a história da sua árvore, que se torna objeto de devoção. A prosperidade surge associada à sacralidade da natureza que o protagonista procura dominar sem, primeiro, compreender. É na destruição do mundo natural que residirá a sua própria ruína. A obsessão do Autor com a terra é evidente nas suas apaixonadas descrições sendo fácil estabelecer o paralelismo entre a saúde da mesma e a prosperidade do nosso protagonista. É um livro de sentimentos na medida em que o leitor consegue, facilmente, viver a angústia de Joseph face aos diferentes desafios que lhe são colocados, ao longo da história. O simbolismo mitológico complementa, na perfeição, os já tão tratados temas na literatura: amor, luxúria e sacrifício.

“O desejo de posse tornou-se-lhe uma paixão. “É minha”, disse surdamente. “Até às profundezas é minha, até ao centro do mundo.” Batia com os pés na terra mole. Depois o entusiasmo tornou-se numa dor aguda de desejo que lhe percorria o corpo como um rio quente. Atirou-se sobre a erva e apoiou com força a face contra as hastes húmidas. Apertou com dedos convulsos a erva molhada e arrancou-a; e voltou a apertar. Batia com força as coxas na terra.

A fúria abandonou-o e ele sentiu-se frio, espantado, assustado de si próprio.”

Vivendo nós, atualmente, os efeitos da crescente distância que se criou entre o Homem e a Terra, A Um Deus Desconhecido não deixa de nos tocar onde importa: qual a nossa real dimensão no mundo? 

Sobre o Autor:

John Steinbeck nasceu em Salinas, na Califórnia, em 1902, numa família de parcos haveres. Chegou a frequentar a Universidade de Stanford, sem concluir nenhuma licenciatura. Em 1925 foi para Nova Iorque, onde tentou uma carreira de escritor, cedo regressando à Califórnia sem ter obtido qualquer sucesso. Alcançou o seu primeiro êxito em 1935, com O Milagre de São Francisco (Tortilla Flat na edição original), confirmado depois, em 1937, com a novela Ratos e Homens. A sua ficção está marcada por uma imensa preocupação com os problemas dos trabalhadores rurais e também por um grande fascínio para com a terra. Em 1939, publicaria aquela que, por muitos, é considerada a sua obra-prima, As Vinhas da Ira. Entre os seus livros, destacam-se ainda os romances A Leste do Paraíso (1952) e O Inverno do Nosso Descontentamento (1961), bem como Viagens com o Charley (1962), em que relata uma viagem de três meses por quarenta estados norte-americanos. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1962. Faleceu em Nova Iorque, a 20 de dezembro de 1968. In Wook.

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Boas Leituras!

2 thoughts on “A um deus desconhecido de John Steinbeck

  1. […] Uma sugestão indicada para ofereceres a um leitor entusiasta. Isto porque a narrativa de Steinbeck não é linear ou evidente, o que pode desagradar a alguém que não tem por hábito ler. A Um Deus Desconhecido foi um dos livros mais marcantes que eu tive a oportunidade de ler. Uma reflexão pungente sobre a frágil condição humana e a sua relação com o mundo e com Deus ou com a espiritualidade. Um daqueles livros que oferece muito mais do que uma estória… Opinião aqui. […]

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  2. […] Uma sugestão indicada para ofereceres a um leitor entusiasta. Isto porque a narrativa de Steinbeck não é linear ou evidente, o que pode desagradar a alguém que não tem por hábito ler. A Um Deus Desconhecido foi um dos livros mais marcantes que eu tive a oportunidade de ler. Uma reflexão pungente sobre a frágil condição humana e a sua relação com o mundo e com Deus ou com a espiritualidade. Um daqueles livros que oferece muito mais do que uma estória… Opinião aqui. […]

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