O Amante de Lady Chatterley de D.H. Lawrence

2/5

Uma narrativa dececionante, superficial e pejada de preconceitos e sensacionalismos propositados. D.H. Lawrence escreveu para chocar, não para apaixonar.

No início, D.H. Lawrence prometeu um livro fascinante sobre o desejo feminino. Escreveu, com sensibilidade, os primeiros capítulos parecendo entrar, com mestria, nesse puzzle que é a sexualidade feminina. Para o efeito, criou uma protagonista que, procurando a sua libertação sexual – metafórica e literalmente – se envolve, de uma forma puramente carnal, com o guarda de caça da propriedade onde vive. De facto, o desejo dela parece ser o foco, mas depressa percebemos que Connie Chatterley está lá para servir uma narrativa predominantemente masculina e pejada de racismo e preconceitos. 

Lady Chatterley vive uma existência pacata na propriedade aristocrática do marido, Cliffofd. Este, tendo ficado ferido na Primeira Grande Guerra, vive numa cadeira de rodas que o limita física e emocionalmente estando, por isso, impossibilitado de qualquer atividade sexual com a esposa. Não fosse a ocasional aventura aqui e acolá, Lady Chatterley estaria, aos 26 anos, condenada ao celibato. Certo dia, Connie conhece Mellors, o guarda de caça da propriedade, por quem sente uma atração física. Os dois iniciam uma relação ilícita dando corpo, consequentemente, às passagens de tom carnal que fizeram com que o livro de D.H. Lawrence fosse apelidado de obsceno e proibido em vários países. 

Escrever esta opinião é uma tarefa ingrata. Isto porque O Amante de Lady Chatterley é um livro cuja substância está intimamente ligada ao período em que foi escrito (início do séc. XX). De facto, para os padrões da época, consigo compreender que tenha sido um livro escandaloso com a descrição detalhada de várias cenas de teor sexual ou a utilização de palavrões. Tanto assim foi que o mesmo só veio a ser publicado no Reino Unido, em 1960, depois de um mediático julgamento que opôs a Penguin à Coroa que se recusava a permitir a sua publicação tendo por base uma lei contra a obscenidade. Este contexto foi determinante na minha vontade de ler o livro de Lawrence. Não foi, porém, suficiente para ter uma  melhor opinião sobre a narrativa. Considerações pejorativas como sobre as mulheres ou as pessoas de raça negra também não ajudaram. A este respeito, destaco alguns dos monólogos de Mellors, o infame ante de Lady Chatterley:

“Diz-me a experiência que a massa das mulheres é assim: a maioria delas quer um homem, mas não quer o sexo, toleram-no como parte do acordo. As mais antiquadas deitam-se como se nada fosse e deixam um homem fazer o que quiser. Não se preocupem, e até gostam do homem. Mas a coisa em si não lhes diz nada, é-lhes até um pouco desagradável. A maioria dos homens gosta assim. Eu detesto. E há o tipo de mulheres dissimuladas que são assim fingindo que não o são. Fingem-se apaixonadas e cheias de entusiasmo mas é tudo manigância. Encenam tudo. Depois há as mulheres que gostam de tudo, de todos os riposte sensação, carícias e prazeres excepto do único que é natural. Fazem-nos sempre gozar quando não estamos no único sítio onde devíamos estar quando gozamos. E depois há as de tipo mais duro, que são o diabo para gozarem connosco, e gozam sozinhas, como a minha mulher. Querem ser a parte activa. Depois há o tipo de mulheres que estão mortas por dentro, mortas, e sabem-no. Depois há aquelas que nos esgotam antes de nos chegarmos a vir, e continuam a contorcer as ancas até se virem contra as nossas coxas. São sobretudo as de tipo lésbico. É espantoso como as mulheres são lésbicas, consciente ou inconscientemente. A mim parece-me que são quase todas lésbicas.”

Página 245 da edição Guerra & Paz.

“Lamento, por fora, todas as complicações, a maldade e a recriminação que hão-de vir, mais cedo ou mais tarde. Isto quando o meu sangue esmorece e me sinto deprimido. Mas quando o sangue sobe, sinto-me feliz. Até triunfante. Estava a tornar-me amargo. Julgava que já não houvesse sexo, sexo verdadeiro, que nenhuma mulher pudesse vir-se naturalmente com um homem, excepto as mulheres negras, e de algum modo, bem, somos homens brancos, e elas são um pouco como lama.”

Página 248 da edição Guerra & Paz.

Confesso que a última frase deixou-me de cabelos em pé. Por pouco, não desistia da leitura naquele instante e só não o fiz porque gosto de me testar enquanto leitora. Por outro lado, fiquei aquela dúvida sobre os comentários refletirem, de facto, um traço de carácter do Autor ou, se pelo contrário, serviam apenas para preencher uma personagem desagradável. Ora, terminada a leitura, recebi que não estava em causa qualquer julgamento moral da personagem por pensar de determinada forma. Aquele ser abjeto que era o Mellors foi o herói da narrativa tendo-me restado a segunda alternativa. Por essa razão, não me atrasei muito e fui pesquisar um pouco sobre D.H. Lawrence e percebi que há um conjunto de rumores e associações do mesmo ao fascismo. Aparentemente. Lawrence era fã dos ditadores fascistas europeus e um confesso racista. Claro que, nos dias de hoje, tendo decorrido tanto tempo, há alguma margem para dúvida até porque ele nunca deu nenhuma entrevista em que dissesse abertamente ser apoiante da ideologia fascista. Porém, são várias as referências, estudos e artigos que se debruçam sobre essa ligação sendo de destacar uma tese da autoria de um estudante da Universidade Estadual da Califórnia que se debruçou sobre o discurso perpetuador da eugenia – traço característico da ideologia nazi – na obra de D.H. Lawrence. Ora, tendo presente este contexto, foi com maior desconfiança que reli algumas partes d’O Amante de Lady Chatterley e este novo olhar não serviu, de todo, para melhorar a minha opinião sobre o livro.

O veredicto é simples: O Amante de Lady Chatterley não me acrescentou absolutamente nada ou, sequer, representou algum tipo de quebra de tabu. Foi apenas um exercício criativo do Autor que tem por foco, não aquela mulher, mas uma mulher qualquer que servisse o seu propósito erótico. Dececionante, superficial e pouco marcante. O pior de tudo: imaginar o que poderia ter sido se tivesse cumprido todo o seu potencial.  

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Boas Leituras!

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