O Imenso Adeus de Raymond Chandler

4/5*

Um policial noir profundo e intrigante que vai conquistar amantes dos filmes de Brian de Palma, Roman Polanski ou Robert Altman.

Filmes como L.A. Confidential, Chinatown ou Os Suspeitos do Costume preencheram o meu imaginário durante anos. O género policial noir popularizou-se na segunda metade do século XX, precisamente, com Raymond Chandler, um dos seus maiores percursores. Por essa razão, e sendo eu fã, a leitura d’O Imenso Adeus pecou por tardia. 

“A primeira vez que vi Terry Lennox, estava ele perdido de bêbedo dentro de um Rolls Royce último modelo, estacionado à entrada do Dancers Club.”

Certa noite, Philip Marlowe, detective privado, recebe a visita de Terry Lennox, seu amigo. Claramente perturbado, Terry pede a Philip que o leve a Tijuana pois tem de sair de LA antes que a polícia o encontre. A sua esposa foi assassinada e Terry é o principal suspeito. Marlowe ajuda o amigo para, dias mais tarde, receber a notícia do seu suicídio. O caso é, assim, encerrado pela polícia que adverte Marlowe da importância da família de Sylvia Lenox, esposa de Terry, que não pretende que o assunto se torne num escândalo. Sucede que o detetive – que não trabalha por dinheiro – não consegue aceitar que o seu amigo matou a esposa ou, sequer, fugiu para se suicidar num quarto de hotel imundo de Tijuana.

Publicado em 1953, O Imenso Adeus é o sexto e último livro de Raymond Chandler, considerado pelo próprio Autor como o seu melhor livro. Ao contrário dos restantes livros da mesma coleção, O Imenso Adeus integra na sua narrativa elementos autobiográficos e, ainda, uma forte crítica social à superficialidade e hipocrisia de Los Angeles, o que levou a que alguns jornais tivessem, na altura da sua publicação, identificado Raymond Chandler como romancista. Tal facto agradou bastante ao Autor que até então, era conhecido como escritor de policiais, uma categoria literária tida como inferior.

O que mais me fascinou no livro foi, sem dúvida, Philip Marlowe, o detetive cínico e mordaz, a quem nada parece escapar. A trama gira à volta de um aparente suicídio que esconde segredos e hipocrisias, oferecendo-nos um mistério sólido e repleto de reviravoltas. Philip surge acompanhado de gangsters, mulheres belíssimas, editores ambiciosos, um magnata que fará tudo para proteger o seu nome, um médico ciumento, jornalistas e um escritor que usa o álcool como refúgio. Este último, de nome Roger Wade, é a personagem mais pessoal de Raymond Chandler lidando com pensamentos suicidas e falta de confiança no seu talento. De resto, sentimentos que o Autor conhecia bastante bem, principalmente na fase em que escrevia O Último Adeus que ficou marcada pela morte da sua esposa.

Nem todas as personagens d’O Último Adeus estão relacionadas com o homicídio de Sylvia Lennox ou é, sequer, claro que Marlowe procure vingar ou limpar nome do amigo. Na verdade, a única certeza que o leitor tem é a de que ele não acredita na culpa de Terry. Apesar de curta, a amizade entre Terry e Marlowe teve um profundo impacto neste último que se debate com um forte sentimento de lealdade para com a sua memória. Esta profundidade é também crucial na forma como percepcionamos o trabalho de Raymond Chandler que vai além do mero mistério ou thriller.

O Último Adeus é um policial profundamente atmosférico. Estamos em Hollywood, nos seus melhores anos, onde o glamour, o dinheiro e o poder proliferam. Os primeiros grandes grupos de media começavam a surgir e o escândalo ameaça tornar-se numa enorme fonte de rendimento. O livro de Raymond Chandler consegue captar a década de 40 na perfeição, proporcionando ao leitor uma viagem imperdível.  O livro mereceu adaptação cinematográfica por parte do mestre Robert Altman contando com Elliot Gould no papel de Philip Marlowe.

Enquanto lia, ouvi:

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Boas Leituras!

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