How to Be Both – a minha estreia com Ali Smith

5/5

Vou confessar. Comprei How to Be Both – em português Como ser Uma e Outra – de Ali Smith por pura vaidade. A edição da Penguin é gira e, claramente, fotogénica. É certo que eu já andava de olho na Ali Smith há algum tempo, mas quando vi esta edição na FNAC a 5 euros – sim! Na feira do livro importado – pensei. E não é que além de estar na lista, este livro é todo um acessório?

Vaidades à parte, o livro foi esperando na estante até ao dia em que decidi conhecer a belíssima prosa de Ali Smith. How to be Both (referir-me-ei ao livro pelo título original porque o li em inglês sendo-me mais fácil estabelecer a ligação entre pensamentos e objeto) é um livro poético e carregado de significados subliminares que passarão despercebidos ao leitor mais distraído que, em rigor, é aquele que não o merece ler.

Dependendo da versão que encontrem na livraria, vocês podem iniciar a leitura com a narrativa, na primeira pessoa, de Francesco Del Cossa, pintor renascentista conhecido pelos seus afrescos ou, ao invés, com a história de Georgina, uma adolescente londrina, que vive o luto pela perda da mãe.

Duas histórias diferentes que podem muito bem ser a mesma. As duas partes do livro divergem não só nos seus protagonistas e contexto histórico, sendo uma contemporânea e outra do século XV, mas também no próprio estilo em que são contadas. Se por um lado, a parte dedicada a George é escrita num estilo confessional, não obstante o narrador omnisciente, por outro lado, Francesco Del Cossa descreve-nos os seus dias em Itália num estilo quase coloquial (as primeiras páginas são deliciosas), sem perder a intimidade com o leitor. Esse foi o grande toque para mim: a intimidade com que Ali Smith se dirige aos seus leitores. Sem dúvida, que estamos perante uma Autora muito completa.

Não obstante a fascinante história que Ali Smith ficcionou a propósito de Francesco Del Cossa (que foi um pintor real), devo confessar que foi George, com a sua inteligência e sensibilidade, quem me conquistou. Somos guiados pelas suas memórias, pensamentos, inquietações e dor. Como é que se ultrapassa uma perda assim?

Há uma cena que me marcou particularmente; George, pouco depois de perder a mãe, dá por si a ver um vídeo pornográfico e violento. Ela não consegue deixar de fazer e fica horas no jardim a ver aquelas e loop numa tentativa de salvar a jovem que protagoniza o vídeo. Porque é preciso que, pelo menos uma pessoa no mundo, reconheça que aquela jovem existe, é um ser humano e sente dor.

Com 15 anos, George sente a ausência da mãe enquanto luta com os demónios próprios de quem procura se encontrar no mundo. À sua semelhança, também Francesco Del Cossa tenta encontrar o seu lugar em Ferrara Palazzo, Itália, alguns séculos antes sendo revelado, a certa altura, que a sua luta é bem mais complicada do que o que poderíamos pensar.

Uma curiosidade: a capa da edição da Penguin é ilustrada por uma fotografia real de duas jovens mulheres em Paris, nos anos 60. George recebe essa mesma foto de uma amiga sendo que esse momento acaba por marcar a relação especial que se estabelece entre as duas.

Com uma voz discreta, mas poderosa, Ali Smith arrebatou o meu pobre coração de leitora. Ansiosa ler mais livros dela!

“Consider this moral conundrum for a moment, George’s mother says to George who’s sitting in the front passenger seat.

Not says. said.

George’s mother is dead.”

Em Portugal, How to be Both encontra-se publicado pela Elsinore com o título Como Ser Uma e Outra com o preço de 19,99€.

Queres ler este livro? Podes comprá-lo aqui e aqui (e ajudar o blog a crescer).

Boas Leituras!

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