Homegoing de Yaa Gyasi – um exemplo perfeito de ficção necessária

5/5

Marjorie e Marcus, dois jovens amigos afro-americanos ambiciosos e cheios de sonhos. Conhecem-se numa festa e sentem empatia, entabulam conversa e depressa surge uma amizade. Sabem que os seus antepassados são do Gana. Não fazem ideia dos laços que os unem. Oito gerações antes, precisamente no território do Gana, duas irmãs sofreram destinos muito diferentes. Effia foi objeto de desejo de um capitão inglês, de seu nome James Collins, que a “desposou” e levou para um belo castelo. Esi caiu nas mãos de comerciantes de escravos que a levaram para os fundos do castelo onde a irmã vive rodeada de luxo para, de seguida, ser comercializada como gado rumo a ligar incerto.

Catorze histórias marcadas pela escravatura. Este é a proposta narrativa de Yaa Gyasi neste muito celebrado Rumo a Casa (publicado em Portugal pela Editorial Presença), um romance cativante e pungente. Nele, Yaa explora com mestria os efeitos devastadores da escravatura que, não obstante os anos, teimam em ficar connosco. Desde as correntes num castelo do Gana ao racismo sistémico vivido, nos dias de hoje, nos EUA, o mesmo aborda as diferentes formas de subjugação e degradação de um povo sentidas pelo ser humano comum, oprimido e privado da sua voz. Com enorme sensibilidade, são-nos apresentadas tradições, culturas, famílias que acabam despedaçadas pela ação dos colonizadores. Pessoalmente, foi um livro que me confrontou com esta herança terrível – os meus antepassados, o meu país, dedicou-se durante séculos ao tráfico de escravos – e fê-lo de uma forma sublime, sem cair no drama gratuito.

Yaa tem ainda o dom de criar interações, entre as suas personagens, absolutamente poderosas. Aliás, é na forma como as mesmas vivem o amor, a amizade e a dor que encontramos alguns dos diálogos mais inesquecíveis das várias estórias que nos são contadas.

“Though Quey was losing his breath, he could feel his cheeks flushing. Cudjo’s body was pressed so close to him than he felt, for a moment, that they were one body. Each hair on Quey’s arms stood at attention, waiting for what would happen next. Finally, Cudjo let him go.

Quey took in deep gulps of air as Cudjo looked on, a smile playing on his lips.

“Were you scared, Quey?” Cudjo asked.

“No.”

“No? Don’t you know every man in Fanteland is scared of me now?

“You wouldn’t hurt me,” Quey said. He looked straight into Cudjo’s eyes and could feel something in them falter.

Quickly, Cudjo regained his composure. “Are you sure?”

“Yes.” Quey said.

“Challenge me, then. Challenge me to wrestle.”

“I won’t.”

Cudjo walked up to Quey until he was standing only inches from his face. “Challenge me,” he said, and breath danced on Quey’s own lips.”

Homegoing, Yaa Gyasi, Vintage Books

De facto, ao longo das várias histórias de Rumo a Casa, vamos nos deparando com momentos de enorme desespero, mas também alguma esperança e fé. A qualidade narrativa de Yaa é inegável e visível na forma como esta nos conta a vida das suas dezenas de personagens. Nas mãos de alguém menos talentoso, o resultado poderia ser uma confusão superficial de personagens. Nas mãos de Yaa, é um livro inesquecível e essencial.

Vencedor do prestigiado National Book Award, Homegoing encontra-se publicado pela Editorial Presença com o título Rumo a Casa e o preço de 17,90€.

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