Terra Alta, Os Miseráveis e Javier Cercas: Uma Opinião

4/5

Disclaimer: Este livro foi uma oferta da Editora Porto Editora. Tal em nada afecta a opinião que, de seguida, se partilha.

O meu primeiro encontro com Javier Cercas deu-se em dezembro de 2019. O livro foi Soldados de Salamina e o fascínio, imediato. (Não tenho review publicada no blog, mas já a estou a preparar). Cercas é um escritor formidável e, por isso, fiquei entusiasmada quando soube que ele ia experimentar o policial, género que me é muito querido. E se, inicialmente, tive dificuldade em descortinar o Cercas que eu conheci num livro tão diferente, depressa me deixei conquistar por uma narrativa misteriosa e surpreendente. Por isso, sinto-me obrigada a deixar o seguinte alerta: quem procura o Cercas de Soldados de Salamina, não o vai encontrar. Terra Alta é um policial, uma obra de ficção que exige um tom diferente do Autor que assume uma postura claramente mais comercial sendo certo que não há nada de errado com isso. Muito pelo contrário. Aliás, Terra Alta conquistou o prémio Planeta 2019, o prestigiado prémio literário concedido pela editora espanhola do mesmo nome a romances inéditos.

Mas como eu ia dizendo, inicialmente, tive alguma dificuldade em desligar-me do Cercas que conheci em Soldados de Salamina, mas lá acabei por me engraçar (e muito!) com Terra Alta. O título é o nome de uma pacata comarca da Catalunha onde, certa noite, ocorre um triplo homicídio que choca todos os seus habitantes. As vítimas são os Adell, um casal poderoso e respeitado na região, e a sua empregada. Um dos investigadores responsáveis pelo caso é Melchor Marín, o protagonista que veio de Barcelona para fugir ao seu passado – pouco ortodoxo. Terra Alta é a sua casa e, não obstante a aparente inércia dos seus superiores, Melchor não vai descansar enquanto não encontrar os responsáveis pela morte dos Adell. Ainda que isso lhe traga um trágico sacrifício pessoal.

Terra Alta é um policial procedimental e atmosférico. A ideia de um protagonista que, depois de cumprir pena de prisão, resolve se tornar polícia é interessante permitindo dar profundidade a um fulano que, de outra forma, pareceria descontextualizado. É certo que o conceito “polícia obcecado” não é novo, mas ao contrário de outros do género, Terra Alta é convincente na medida em que atribui profundidade a Melchor. A verdade é que ele já falhou no passado – logo nos primeiros capítulos ficamos a saber que teve a sua mãe assassinada – e, claramente, não quer que tal volte a acontecer, entrando numa lógica de justiceiro que, a certa altura, se transforma em vingador.

O crime que espoleta tudo é violento sendo pouco evidente as razões que o motivaram. O leitor vê-se confrontado com personagens enigmáticas e robustas que, por trás de uma aparente normalidade, escondem sentimentos terríveis. Pelo meio, surgem referências fantásticas à obra de Vitor Hugo, Os Miseráveis, que se torna o livro favorito de Melchor numa homenagem do Autor a uma das suas fontes de inspiração. Afinal, quem é Melchor, se não uma versão contemporânea de Jean Valjean?

Uma surpreendente e sólida estreia de Cercas que prova ser um daqueles escritores que navega facilmente em várias águas.

Ansiosa para ler o que vem por aí!

Queres ler este livro? Podes comprá-lo aqui (e ajudar o blog a crescer).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s