O Jardim de Cimento de Ian McEwan

4/5

Um romance escandaloso, mórbido e profundo. Coloca em causa o ser humano como produto do seu meio e limitado por um padrão normativo ético-moral deixando, por isso, o leitor desconfortável.

A primeira vez que ouvi falar d’O Jardim de Cimento foi, julgo, num artigo da Vulture sobre filmes subversivos que se tinham tornado fenómenos de culto. A revista apontava a adaptação cinematográfica do romance de McEwan como uma verdadeira produção contracorrente que elevava uma muito jovem Charlotte Gainsbourg à categoria de atriz favorita do cinema indie. Confesso que me senti atraída por todo o conceito do livro/filme e, por isso tendo surgido a oportunidade, adquiri o livro e estreei-me com Ian McEwan. E, tal como esperava, foi uma grande estreia!

A premissa é arrebatadora: quatro jovens escondem a morte da mãe para poderem viver livremente e, assim, entregar-se a um clima assombroso de total apatia, desmazelo e solidão. A sua casa torna-se uma cápsula de amoralidade e anarquia onde todas as fantasias são válidas. Em pouco mais de cem páginas, Jack, o segundo dos quatro jovens irmãos que, no alto dos seus quinze anos, atravessa uma crise existencial exacerbado pelas erupções cutâneas que lhe cobrem o rosto, narra-nos dias protagonizados pelo absurdo e pelo cheiro putrefacto do corpo da sua mãe que se decompõe na cave.

Mais do que uma narrativa de ficção, O Jardim de Cimento é um exercício teórico e filosófico fantástico. Somos resultado do meio ou da natureza? Sim, essa pergunta que tantos filósofos e pensadores tentaram responder destacando-se Freud, Rousseau, Hobbes, Kant, etc é, claramente, abordada por McEwan. E por falar em Freud, é clara a inspiração que as teorias do psicanalista têm na construção do narrador Jack:

Não matei o meu pai, mas às vezes sinto que contribuí para isso.”

Absolutamente cruel e visceral, O Jardim de Cimento choca pela aspereza das palavras. Ian McEwan escreve sem floreados ou poesia. A prosa é seca, mas carregada de significado como podemos ver nas suas primeiras linhas quando o pai de Jack recebe sacos de cimento, esse material que traça o tom cinzento das vidas dos seus filhos. A ausência de sonhos e aspirações, depressa, se transforma num conflito de género, sexo e papéis sociais. Um romance perturbador que não deixará nenhum leitor indiferente. Não aconselhável aos mais sensíveis.

Boas Leituras!

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