O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald e as suas inúmeras qualidades

4/5

De um ponto de vista pessoal, não posso dizer que O Grande Gatsby tenha sido um romance inesquecível. Não me senti particularmente tocada pela narrativa, mas não posso deixar de elevar as suas inúmeras qualidades. Considerado por muitos o grande clássico moderno americano. O Grande Gatsby não foi recebido aquando a sua publicação, em 1925, sem grande entusiasmo. Hoje, o seu valor é inegável apelando igualmente o leitor comum e a crítica especializada sendo que tal se prende, por um lado, com o seu caráter profético e reflexivo. Se, por um lado, O Grande Gatsby retrata a sociedade narcisista, alienada e corrompida que haveria de viver o Grande Crash de ’29 e a subsequente depressão, por outro, transmite uma visão astuta da época onde o consumismo, o lazer e a extravagância ocupavam as mentes dos americanos.

O materialismo surge do modernismo e da inovação tecnológica, dois elementos constantes no romance de Fitzgerald.

Logo no primeiro capítulo, o narrador Nick Carraway compara a sensibilidade de Jay Gatsby para as promessas da vida ao intricado funcionamento de um sismógrafo:

“Only Gatsby, the man who gives his name to this book, was exempt from reaction – Gatsby, who represented everything for which I have an unaffected scorn. If personality is an unbroken series of successful gestures, then there was something gorgeous about him, some heightened sensitivity to the promises of life, as if he were related to one of those intricate machines that register earthquakes ten thousand miles away.”

Dizendo, mais tarde, sobre Nova Iorque que o que o fascina é a sua vitalidade mecânica:

“I began to like New York, the racy, adventurous feel of it at night, and the satisfaction and constant flicker of men an women and machines gives to the restless eye.

(Uma curiosidade: a expressão “flicker” é uma aparente referência ao romance de Joseph Conrad, Coração das Trevas – publicada em 1902 – que terá influenciado muito Fitzgerald, principalmente no que concerne à organização da sua narrativa).

O que torna Gatsby um romance moderno, ao invés de vitoriano, é a sua clara inspiração numa cultura que começou a surgir por volta de 1895 e estabeleceu-se entre 1910 e 1920. Assim, se é certo que Fitzgerald nasceu numa América rural marcada por cavalos e linhas férreas, a verdade é que em 1925, ano da publicação d’O Grande Gatsby, o mundo já era conduzido por eletricidade, carros e telefone. O Autor cresce num ambiente frenético de mudança e evolução que acaba por se refletir na sua obra. Aliás, uma das características mais marcantes do romance que aqui falo é precisamente a sua riqueza e atenção ao detalhe, o que o torna profundamente atmosférico. A eletricidade surge em todo o lado sendo responsável por algumas das suas passagens mais visuais:

“I sat on the front steps with them while they waited for their car. It was dark here; only the bright door sent ten square feet of light volleying out into the soft black morning. Sometimes a shadow moved against a dressing-room blind above, gave away to another shadow, an indefinite procession of shadows, that rouged and powdered in an invisible glass.”

E se é certo que muitos entenderão O Grande Gatsby como uma história de amor, tal não deixa de me causar estranheza. Isto porque Fitzgerald não mais faz do que refletir sobre a corrupção da sociedade americana marcada pela sua devoção à celebração e à riqueza. É a corrupção do idealismo americano. A liberdade e a busca pela felicidade foram reduzidas à busca consumista. Repare-se que a própria relação entre Gatsby e Daisy é movida por uma necessidade de ter. O amor de Daisy é condicionado pela aparente riqueza de Gatsby:

While we admired he bought more and the soft rich heap mounted higher – shirts with stripes and scrolls and plaids in coral and apple-green and lavender and faint orange, with monograms of Indian blue. Suddenly, with a strained sound, Daisy bent her head into the shirts and began to cry stormily.

“They’re such beautiful shirts”, she sobbed, her voice muffled in the thick folds. “It makes me sad because I’ve never seen such – such beautiful shirts before.”

E o amor de Gatsby só é plenamente perseguido quando este conquista um elevado grau de certeza.

Por tudo isto, O Grande Gatsby é o romance de uma era tendo inspirado Autores até aos dias atuais. Don Delillo, Thomas Pynchon e Brett Easton Ellis são meros exemplos de Autores fascinados com a América superficial e pejada de produtos e futilidades.

A respeito de F. Scott Fitzgerald, Guy Reynolds, professor universitário e teórico da sua obra, disse:

“In his care for detail, and his desire to improve his product, Fitzgerald was every bit as much an American producer of goods as was Henry Ford, the automobile manufacturer. And, like an early Ford car, the status of The Great Gatsby rests not only on its technological acumen, but in its exemplary resonance for later producers: the writers who continue to read the United States as “the brilliant event”, invariably and recurrently.”

Prefácio de The Great Gatsby, Edições Wordsworth Classics.

Como disse, não obstante não se tratar de um livro da vida, gostei de ler O Grande Gatsby e aconselho pela sua riqueza narrativa e histórica. É um exemplar magnífico da literatura norte-americana e, nessa medida, merece toda a atenção que lhe possam dispensar.

Edição portuguesa da Porto Editora. Preço: 10,90 €

Sobre o Livro:

Justamente considerada uma das mais importantes obras de ficção do século XX, O Grande Gatsby é um retrato notável da era dourada do jazz em toda a sua decadência e excessos. Pelos olhos do provinciano Nick Carraway, conhecemos a história do misterioso Jay Gatsby, um milionário que subiu na vida a pulso, movido pela paixão quixotesca que nutre pela jovem Daisy, uma rica herdeira bela e frívola. A sua obsessão por ela fá-lo reinventar-se para por fim poder reclamar a sua amada, numa autêntica encarnação do sonho americano. Porém, o reencontro de ambos acaba por desencadear uma série de acontecimentos trágicos, com Gatsby a ser vítima não apenas da sua ambição, mas da insensibilidade e falta de valores que imperam na sociedade americana da época. (Sinopse oficial)

Boas Leituras!

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