Minha querida Jane Eyre…

5/5

Um dos livros da minha vida é O Monte dos Vendavais de Emily Brontë. Li-o há uns anos e fui completamete arrebatada pela estória trágica de Catherine e Heathcliff, personagens que ocupam, até hije, um lugar muito especial no meu coração. A curiosidade para ler a obra das irmãs Charlotte ou Anne era, por isso, muita. Razão pela qual dei por mim a ler o tão aclamado Jane Eyre de Charlotte Brontë (para o leitor do século XIX, de Currer Bell, pseudónimo de Charlotte) que – espantem-se! – tornou-se, também, num favorito da vida.

O que me cativou, de imediato, em Jane Eyre foi o estilo literário de Charlotte que é bonito e eloquente. As palavras conquistam muito antes da narrativa, o que revela uma maturidade da Autora pouco condizente com a sua tenra idade, aquando a publicação do livro. Na verdade, o talento corria nas veias dos irmãos Brontë que já em crianças se divertiam a escrever estórias, poesia, peças de teatro, etc, o que era surpreendente atendendo ao facto dos mesmos não serem de uma familia particularmente bem colocada ou erudita. Não estranhem as referências à vida de Charlotte ao longo desta opinião. A verdade éque pensar Jane Eyre sem pensar em Charlotte Brontë não me parece, sequer, possivel. Sim, Jane Eyre tem muito de Charlotte Brontë, mas também tem muita ficção sendo, por tudo isso, uma obra de excelsa qualidade.

Tendo por cenário a Inglaterra rural do século XIX, Jane Eyre conta-nos a vida da jovem Jane que, nascida no meio da desgraça, parece condenada à miséria e ao sofrimento. Aos nove anos, a protagonista vive com a tia Mrs. Reed em Gateshead sendo, aí, submetida aos mais variados abusos de ordem psicológica e física:

(Mrs. Reed sobre Jane quando esta tem apenas 10 anos)” Mr. Brocklehurst, creio que dei a perceber, na carta que lhe escrevi há três dias, que esta menina não tem nada o carácter e a índole que eu desejaria que tivesse. Se a admitir na escola de Lowood, ficaria contente se recomendasse à diretora e às mestras para a vigiarem com severidade e, sobretudo, para se precaverem contra a sua pior falta, a tendência para o embuste. Menciono isto na tua presença, Jane, para que não tentes enganar Mr. Brocklehurst.”

Mrs. Reed tomou conta da sobrinha em virtude de uma promessa feita ao seu irmão, pai de Jane, antes deste morrer. Considerando ser suficiente para dar cumprimento ao prometido, garantir que Jane tem um tecto onde dormir, Mrs. Reed maltrata a sobrinha acusando-a de ser endiabrada, maldosa e mal-educada. Para alegria de todos, incluindo da própria, Jane acaba por abandonar a casa dos Reed para ser educada no pensionato do Lowood, onde conhece Helen Burns e Miss Temple, aluna e professora que a ensinarão e estimularão o seu desenvolvimento, não obstante as parcas condições em que todas vivem. Lowood é um lugar frio onde a fome e a austeridade escondem a hiprocrisia daqueles que gerem:

“-As suas decisões são perfeitamente sensatas, minha senhora. – replicou Mr. Brocklehurst. – A humildade é uma graça cristã, particularmente apropriada para as educandas de Lowood. Por isso exijo que seja prestado um cuidado especial ao seu cultivo entre elas. Estudei a melhor maneira de lhes mortificar o sentimento humano do orgulho, e tive, ainda outro dia, uma prova agradável do meu êxito. A minha segunda filha, Augusta, foi com a mãe visitar a escola, e, ao regressar, exclamou: “Oh! meu querido papá, como são sossegadas e feias todas as raparigas em Lowood, com os cabelos penteados para trás das orelhas, os bibes compridos e aquelas algibeirinhas de holanda por fora dos vestidos! Parecem quase filhas de pobres!” E, continuou ela: “Olharam par ao meu vestido e par ao da mamã como se nunca tivessem visto antes um vestido de seda.”

Jane cresce com grandes méritos em Lowood e torna-se professora. Procurando conhecer outras realidades, acaba por aceitar trabalhar para Mr. Rochester, um aristocrata mal encarado, como preceptora da protegida deste, a pequena Adéle. Assim se inicia a sua estadia em Thornfield onde Jane atravessa alguns dos maiores conflitos da narrativa. Se por um lado, ama o seu patrão, por outro, não se quer submeter a ele. A noção de dever e a sobriedade são duas características muito vincadas de Jane:

“Não era a primeira que (Mr. Rochester) partia de uma maneira tão abrupta e inesperada. Quando ouvi isto, comecei a sentir um frio estranho e o coração a falhar. Estava de facto a permitir-se experimentar uma sensação de náusea e desapontamento, mas, recobrando as forças e lembrando-me das minhas resoluções, meti logo os meus sentidos na ordem. Recuperei maravilhosamente a serenidade, após aquela momentânea confusão, e afastei do espírito o erro de supor os movimentos de Mr. Rochester um assunto que pudesse, de qualquer maneira, possuir para mim um interesse vital. Não que me humilhasse numa sensação servil de inferioridade.”

Características essas que escondem uma Jane independente e emancipada, capaz de trabalhar e assegurar o seu sustento sem ter de casar.

A certa altura, Jane encontra-se com o seu passado ao cruzar caminho com Mrs. Reed, que está às portas da morte, e com a família Rivers, em Moor House. Fecha-se um ciclo e Jane atinge um estado de plena liberdade e autonomia recusando a condição feminina e frágil apregoada pelos ideais vitorianos puritanos,

Jane Eyre é um romance de formação na medida em que acompanha a personagem título desde a sua infância à idade adulta, tendo como força motriz da narrativa as diferentes transformações que esta vai sofrendo consoante a sua idade, circunstâncias e contexto sócio-económico. Transformações essas que fazem eco do próprio crescimento de Charlotte Brontë. À semelhança de Jane, também Charlotte passou cerca de dez meses num pensionato para meninas de condição social mais precária. A falta de condições e a fome presentes no lugar levaram a que Jane perdesse as duas irmãs Maria e Elizabeth, de 11 e 10 anos respetivamente. Mais tarde, Charlotte foi mandada para uma reputada escola inglesa, tendo-se tornado preceptora ambicionando. consequentemente, abrir o seu próprio pensionato. Aparentemente, durante uma temporada em Bruxelas, Charlotte ter-se-á apaixonado por Mr. Héger que serviu de inspiração para Mr. Rochester.

O Monte dos Vendavais de Emily Brontë é um dos meus livros favoritos. A primeira vez que o li, há alguns anos, demorei 2 dias a terminá-lo. Ler Jane Eyre foi uma oportunidade de voltar ao Monte dos Vendavais. São romances diferentes, mas o ambiente bucólico e as personagens intempestivas estão lá. Não li Jane Eyre em 2 dias – porque a vida é outra – mas senti essa compulsão. Fui completamente arrebatada pela narrativa, pelas personagens e pela aura de mistério tão característica. Acima de tudo, fiquei rendida a Jane que na sua discrição, ar frágil e seriedade escondeu uma das personalidades mais acutilantes que tive o prazer de conhecer.

Um romance inesquecível! Já leram?

Boas Leituras!

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