A beleza que podemos encontrar n’A Devastação do Silêncio de João Reis

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A Devastação do Silêncio marca a minha segunda incursão pela obra de João Reis, sucedendo a uma leitura extraordinária, o magnífico Avó e a Neve Russa. Com um domínio excecional sobre a língua portuguesa, Reis conquista pelas palavras sempre certeiras e insuspeitas e a narrativa que, destafeita, decorre num campo de prisioneiros alemão, durante a Primeira Guerra Mundial. É aqui que o narrador, um capitão do Corpo Expedicionário Português, se arrasta sem poder aceder a um conjunto de privilégios que lhe seriam devidos, se munido dos documentos que comprovam a sua patente:

“- Mein Herr, teria todo o gosto em transferi-lo para um campo de oficiais, mas, como compreenderá, não posso abrir uma exceção e aceitar, assim, sem provas, sem uma mera placa identificativa, a sua putativa patente de capitão. Compreende, não? espero que seja compreensivo. Mein Herr, na guerra é precisa paciência.”

No campo, a miséria, a fome e a doença provocam um ruído ensurdecedor. Já diz o ditado “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Os prisioneiros lutam entre si, reclamam, gemem com dores, berram e lamentam a sua frágil condição. O quadro fica completo com os sons de guerra que nunca cessam. E tudo o que o narrador quer é silêncio. Sabemos que ele sobrevive porque, anos mais tarde, alguém lhe pergunta se é verdade que os alemães pediram para lhe gravar a voz. Para quê?

“Sim, respondi-lhe, recordava-me da ocasião em que os alemães gravaram a minha voz no campo de detenção para prisioneiros de guerra, apesar das circunstâncias, lembrava-me com grade exatidão do que sucedera, garanti-lhe.”

Lido A Devastação do Silêncio, posso afiançar que João Reis é, para mim, uma das grandes vozes contemporâneas da literatura nacional. O seu estilo é inconfundível. Cru, cáustico e poético. O capitão que procura silêncio no meio da guerra é uma premissa deliciosa à qual o Autor atribui plena realização. E fá-lo de forma magistral. O capitão vai-nos narrando, a par da sua estória, várias outras concernentes aos seus companheiros de luta e de morte, traçando um retrato trágico de um cenário de guerra tão caro a Portugal. Mas desengane-se quem procura aqui uma estória de guerra ou patriotismo. Acima de tudo, a Devastação do Silêncio é uma narrativa ficcionada sobre a natureza humana e a extraordinária capacidade de sobrevivência do ser-humano, sob as mais trágicas circunstâncias:

“Sentei-me numa retrete vaga. Refleti, um estômago vazio, enche-nos a cabeça de ilusões, imagens turvas, olhei para o céu e, depois, para as traves que serviam de anteparo e lá estavam dois ingleses e um canadiano, acenaram-me, sentados nas retretes falavam entre eles, trocavam comida, bolachas por cigarros, cigarros por fatias de pão, pareceu-me inclusive entrever um naco de manteiga, pedaços de queijo, um bolo de limão, naqueles bolsos cabia tudo… fossem eles bolsos civis ou militares… sim, de facto, encontrávamo-nos num novo limiar de desenvolvimento humano diante de tais bolsos, nunca mais encontrei bolsos como no tempo da guerra, hoje em dia não conseguimos guardar mais do que um molho de chaves e um lenço nos bolsos das calças , bem diferentes dos bolsos da época, de onde saíam pães, presuntos, garrafas, roldanas, piolhos…”

Um romance que conquista pelo narrador empático, originalidade e riqueza vocabular. Se não for por mais nada, que seja pela escrita que, no caso de João Reis, é excecional. Acresce a edição belíssima da Elsinore que nos presenteia com ilustrações de alguns dos momentos marcantes da estória do capitão que teve a sua voz gravada pelos alemães.

Boas Leituras!

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