Sobre a trilogia As Areias do Imperador de Mia Couto

5/5

Em 2020, terminei a leitura de uma das mais belas histórias que tive o prazer de ler. O seu autor é o moçambicano Mia Couto, com quem travei caminho, há vários anos, com a leitura d’O Último Voo do Flamingo. Na altura, a minha imaturidade literária levou-me a estranhar o estilo lírico que Mia impende sobre a sua prosa (por estas e por outras, não me canso de defender que também o livro tem o seu tempo para ser lido). Não foi, por isso, sem algum receio que decidi ler a sua trilogia Areias do Imperador que se completa com os volumes: Mulheres de Cinza (publicado em outubro de 2015), A Espada e a Azagaia (publicado em outubro de 2016) e O Bebedor de Horizontes (publicado em novembro de 2017). Receio esse que nunca se materializou. O que outrora me causou estranheza, desta feita me apaixonou. O estilo de Mia é poético, fascinante e revela uma destreza com as palavras que só os mestres conseguem ter.

Inibi-me de escrever sobre Mulheres de Cinza ou A Espada e a Azagaia, aquando a sua leitura, porque me pareceu um exercício incompleto. A história que Mia nos quer contar só se revela, em toda o seu fulgor, com a leitura dos três volumes que a completam. Por isso, desde já vos desafio a não demorar entre os três livros ou a desistir, no final do primeiro. Leiam tudo porque valerá a pena.

Ambientada no Estado de Gaza – que ocupava metade do território moçambicano – durante o século XIX, a narrativa é-nos contada por Imani que, aos 15 anos, se vê incumbida de uma tarefa de grande responsabilidade. Como única conhecedora e faladora do portugês junto da sua comunidade, os VaChopi, Imani torna-se tradutora, intérprete e ponto de ligação entre a Coroa Portuguesa, representada pelo Sargento Germano de Melo, e os cidadãos de Nkokolani, vila em que habita com a sua família tradicionalista. Os VaChopi, como Imani nos conta, apoiam a Coroa Portuguesa no conflito que a opõe ao Estado de Gaza que, no momento, vive sob a liderança do Imperador Ngungunyane (ou Gungunhane, como ficou conhecido pelos portugueses):

“Os outros povos, nossos vizinhos, moldaram-se à língua e aos costumes dos invasores negros, esses que chegavam do sul. Nós, os VaChopi, somos dos poucos que habitam as Terras da Coroa e que se aliaram aos portugueses no conflito contra o Império de Gaza. Somos poucos, murados pelo orgulho e cercados pelos kokholos, essas muralhas de madeira que erguemos em redor das nossas aldeias. Por razão desses abrigos, o nosso lugar tornara-se tão pequeno que até as pedras tinham nome. Em Nkokolani, bebíamos todos do mesmo poço, uma única gota de veneno bastaria para matar a aldeia inteira.”

Ora, o Estado de Gaza atravessa os seus derradeiros desafios. As forças portuguesas, comandadas por Mouzinho de Albuquerque, têm uma missão: capturar Ngungunyane e acabar, de vez, com o insurreto Estado. Neste contexto, Imani questiona-se sobre o seu papel e lealdade, conflitos esses exacerbados pela sua paixão por Germano de Melo e pelas tragédias familiares que se vão abatendo sobre si:

“Não sei porque me demoro tanto nestas explicações. Porque não nasci para ser pessoa. Sou uma raça, sou uma tribo, sou um sexo, sou tudo o que me impede de ser eu mesma. Sou negra, sou dos VaChopi, uma pequena tribo no litoral de Moçambique. “

Mulheres de Cinza apresenta-nos a Imani, o Germano e toda a carga que um e outro aportam. Com especial foco nas tradições e crenças que norteiam as vidas de Imani, dos seus familiares e antepassados, a ação decorre, maioritariamente em Nkokolani. Há um clima de antecipação da invasão iminente de Ngungunyane que pretende, assim, conquistar uma das últimas áreas daquela parcela de território que ainda pertence à Coroa. Imani procura a proteção portuguesa personificada em Germano que se apresenta, inicialmente, como o herói, o homem da Coroa que vem para cuidar do seu povo que, na verdade, nunca foi verdadeiramente seu.

Entramos, então n’A Espada e a Azagaia. Imani embarca numa viagem com o seu pai, o irmão Mwanatu, Germano e uma meretriz italiana chamada Bianca Vanzini. Abandona a sua terra e o seu passado. Fecha-se um ciclo. “Tudo começa sempre com um adeus”, começa por nos dizer.

“Aos quinze anos, numa pequena canoa, eu deixava para trás a minha aldeia e o meu passado. Algo, porém, me dizia que, mais à frente, iria reencontrar antigas amarguras. A canoa afastava-me de Nkokolani mas trazia para mais perto os meus mortos.”

O improvável grupo acaba numa igreja onde variadíssimas desventuras o desmembram. Imani conhece, finalmente, Ngungunyane e Mouzinho de Albuquerque unindo-se ficção e não ficção. A partir daqui, Mia cria um papel para Imani na história de Moçambique e Portugal tornando-a numa das mulheres que acompanhou o Imperador na sua viagem para Portugal, aquando a sua captura. Germano fica relegado para segundo plano porque isto não é uma história de amor. Imani avisou o leitor. Ela não é uma pessoa. É bem mais do que isso. No segundo volume da trilogia, Imani conhece outras mulheres negras, mulheres que podiam ser a sua mãe, há muito morta, e que lhe mostram as suas raízes. Isto gera um conflito interno que acompanhará a nossa protagonista até ao final da sua história. Tavez, Imani não fosse nem negra, nem branca:

“- Não deixo de escutar o que os outros pretos dizem de ti. E confesso uma coisa, minha filha: antes fosses branca.

Mais do que a uma raça eu pertencia a uma amaldiçoada espécie: era amiga dos brancos. Atirar-me-iam à cara essa condição como se faz aos loucos e aos leprosos.”

O Bebedor de Horizontes encerra as jornadas de Imani e Ngungunyane. Os dois viajam para Portugal, na qualidade de prisioneiros, debatendo-se com os factos que levaram à sua captura, a perda dos que mais amam e, no caso de Imani, a eterna esperança de reencontrar o amor da sua vida. Aqui, Mia assume uma intenção crítica mais clara relativamente à coroa portuguesa. Destaca-se, a este respeito, a troca de correspondência entre um sargento progressista e um capitão racista e defensor da colonização. Os dois divagam sobre as suas interpretações de uma imagem chocante do Congo Belga:

“Os negros exibiam as mãos decepadas de outros escravos. Quase não se distinguiam os dedos dos vivos dos mortos. Como se as mãos decepadas ainda se agarrassem a um corpo vivo. Como se não soubessem morrer.”

O foco está, agora, no terrível papel dos Portugueses sendo o tom mais político. As personagens discutem, por fim, a colonização de Moçambique por Portugal e a tradição do país no comércio de escravos. Imani, por sua vez, combate a sua própria batalha. Falar Português tem sido a sua benção e maldição já que a torna um ser híbrido que nunca será aceite, seja por brancos ou negros. Raça, sexismo, cultura e passado marcam a tónica de um final triste, mas esperançoso já que a fé nunca abandonou a nossa narradora. 

Chamar à trilogia As Areias do Imperador um romance é demasiado redutor. As Areias do Imperador é uma trilogia soberba e tal deve-se, em muito, ao estilo de Mia Couto que elogia as tradições moçambicanas com recurso ao seu já característico lirismo. O Autor brinca com as palavras propondo um recuo a um período histórico onde as várias identidades e culturas negras saiam derrotadas e subjugadas pelo colonizador. Subjugação essa que se manifestava, também, através da linguagem. A escolha de uma tradutora ou intérprete como protagonista não é inocente. Trata-se, pelo contrário, de uma reflexão sobre a linguagem como instrumento de poder. Há também um trabalho narrativo muito pertinente sobre a desumanização, em tempos de guerra. Todas as personagens são profundamente empáticas e reais demonstrando uma força conivente com a sua riquíssima tradição.

Todos estes elementos fazem com que estejamos perante uma bela, trágica, poética e profundamente apaixonante história. O que, de resto, foi reconhecido pelo reputado Prémio Jan Michalski de literatura, em dezembro deste ano. O júri do prémio reconheceu “a excecional qualidade da escrita” de Mia Couto, que conjuga, “subtilmente, oralidade e narração literária e epistolar, contos, fábulas, sonhos e crenças, no seio da realidade histórica de Moçambique, no final do século XIX, na luta contra a colonização portuguesa”.

E o prémio foi atribuído tendo por base a tradução francesa. Imaginem se tivessem lido no idioma original?

Boas Leituras!

Queres ler estes livros? Podes comprá-los aqui (e ajudar o blog a crescer) ou requisitar numa biblioteca perto de ti.

One thought on “Sobre a trilogia As Areias do Imperador de Mia Couto

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s