Finalmente li A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera…

Sim, depois das 3000 recomendações para o fazer, finalmente li o grande clássico moderno que é A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera. Publicado em 1984, o livro foi um sucesso instantâneo junto não só dos críticos como igualmente do grande público.

Uma das razões para esse sucesso teve que ver com a proximidade que os leitores sentiram da narrativa já que a mesma aborda acontecimentos políticos ainda recentes cujos efeitos ainda se repercutiam à época. 

É precisamente por essa razão que eu acho que é relevante, desde já, abordar alguns aspetos biográfico do próprio Kundera que se refletem, na minha óptica, de uma forma mais ou menos  subtil na narrativa. 

Milan Kundera nasceu em Brno. na Checoslováquia (atualmente República Checa), em 1929. Ora, a partir de 48, estava Kundera a terminar o ensino secundária, a Checoslováquia tornou-se numa República Popular liderada pelo Partido Comunista Checo que contava com o apoio da União Soviética. Kundera filia-se no partido mas não partilha, claramente, das suas ideias sendo expulso do mesmo, duas vezes, por praticar atividades “anti-partidárias”. A primeira expulsão ocorre logo em 1950 sendo que ele acaba por ser reintegrado em 1956 e a segunda em 1970 pelo seu envolvimento na Primavera de Praga em 1968. A título de contextualização, a Primavera de Praga foi um período de liberalização política na Checoslováquia marcado pelo levantamento de uma série de restrições às liberdades individuais dos cidadãos checos numa tentativa de democratização do país. Teve início a 5 de janeiro de 1968, com a chegada ao poder de Alexander Dubcek e fim a 21 de agosto com a Invasão Soviética a partir da qual o país entrou num regime socialista totalitário até 1989, ano em que recuperaram a sua independência e liberdade. 

Depois desta segunda expulsão do Partido Comunista, Kundera tentou ainda impulsionar um movimento reformista mas não foi bem sucedido tendo acabado por abandonar o seu país para fixar residência em França, em 1975. Em 79, a Checoslováquia revogou-lhe a cidadania e em 1980, Kundera tornou-se oficialmente cidadão francês. 

Daqui podemos inferir que Kundera foi, durante grande parte da sua vida, um claro opositor do regime comunista, um perseguido político e presenciou a queda do seu próprio país tendo sido um ator importante durante dois grandes acontecimentos históricos: a Primavera de Praga e a Invasão Soviética em 68. É precisamente este o contexto d’A Insustentável Leveza do Ser. 

A Invasão Soviética de 1968 e o impacto que a mesma teve na vida, essencialmente, de três pessoas: 

  1. Tomas,
  2. Tereza,
  3. Sabina,

Ora, Tomas é um cirurgião bastante competente e respeitado mas descomprometido. Ele tem várias amizades eróticas, como ele lhe chama, é divorciado e tem um filho a quem decidiu que nunca mais veria na vida. Certa altura, numa viagem de trabalho Tomas conhece a Tereza, uma cidadezinha provinciana da Boémia (parte da República Checa onde, entre outros está localizada Praga. Refiro especificamente Boémia porque é um termo muito cunhado pelo Autor e eu própria precisei de ver exatamente o que era). Tomas conhece Tereza que o serve (ela é empregada de balcão) e os dois sentem ali uma química e Tomas resolve dar-lhe o seu contacto pedindo a Teresa que o contacto caso visite Praga. Na minha óptica, este foi um daqueles convites pouco sérios. 

Porém, Teresa que quer mudar de vida e afastar-se o mais possível da mãe com quem tem uma relação muito difícil. Sem grandes demoras, Teresa arruma as suas coisinhas e apanha o comboio para Praga onde se encontra com Tomas com quem passa a viver e, mais tarde, casar. 

Sucede que, como eu vos disse, o Tomas não é homem de uma mulher só. Logo nos primeiros capítulos, o narrador diz-nos que “A convenção não escrita da amizade erótica implicava que Tomas excluísse o amor da sua vida. Se transgredisse esta condição, as suas outras amantes, a a partir daí numa posição subalterna, revoltar-se-iam imediatamente. Arranjou portanto um quarto para onde Tereza teve de levar a sua pesadíssima mala. Queria tomar conta dela, protegê-la, gozar a sua presença, mas não sentia necessidade nenhuma de mudar de vida. Por isso não queria que se soubesse que ela dormia em sua casa. A partilha do sono era o corpo de delito do amor.” 

Como podem imaginar, as infidelidades de Tomas continuam e, entre as suas amantes, podemos encontrar a pintora Sabina que segundo ele é a amante que melhor o compreende. Sabina é, na minha óptica, a personagem mais curiosa e complexa deste romance. É uma mulher que nega compromissos seja  com Tomas ou qualquer outro homem. Vive da traição. A traição é para si um vício. Um vício que acaba por ajudá-la a lidar com uma série de angústias e decepções. Aquando a Invasão Soviética, Sabina é a primeira das personagens a fugir do país para se instalar em Genebra. Em vários momentos, ela tece comentários depreciativos seja relativamente aos seus compatriotas que, mesmo fora da Checoslováquia, tentam organizar iniciativas de insurreição ou aos seus amantes. Tem temas mal resolvidos com o pai, entretanto falecido, com quem procura se conectar usando um chapéu de coco que este tinha.  Aliás, as cenas que envolvem a Sabina e o chapéu de coco são das mais inesquecíveis do livro. Inesquecíveis e sensuais já que Sabina utiliza este chapéu também como acessório nas suas brincadeiras sexuais com o Tomas. 

Esta forma aparentemente desprendida de levar a vida acaba por fascinar Teresa que, já sabendo das infidelidades de Tomas porque segundo ela, é possível cheirar as outras mulheres no cabelo do marido, procura Sabina. A este respeito, destaco os sonhos de Tereza que sabendo das infidelidades do marido e nada fazendo quanto às mesmas, vai imputando todos os seus terrores, dores e angústias nos sonhos mais visuais e bizarros. 

Surge-nos ainda uma quarta personagem. Franz, um professor universitário suíço casado que mantém uma relação extraconjugal (a infidelidade é um elemento muito presente neste romance) com, nada mais nada menos, do que Sabina. Ora, Franz é uma personagem, de certa forma, inocente porque se apaixona verdadeiramente por Sabina, apesar de não a compreender minimamente. Tanto assim é que ele acaba por fazer aquilo que Sabina menos queria no mundo: deixar a mulher, legitimando, dessa forma, a relação entre os amantes. A Sabina e o Franz entendem-se tão mal que o Autor, e reparem que isto é delicioso, cria um pequeno léxico de palavras mal entendidas, onde nos explica o que cada uma significa para cada um deles.

E Karenina a cadela de Tomas e Teresa que assume aqui um papel muito importante, não fosse Kundera um defensor dos animais (pontos para Kundera!). 

Voltando aqui ao núcleo Tomas/Tereza e Sabina. As três personagens reagem e sofrem, de forma diferente, com a Invasão. Sabina abandona definitivamente o país fechando, por completo, as portas à sua pátria. Já Tomas e Tereza, vão para Zurique durante algum tempo, mas acabam por voltar. Primeiro Tereza e depois Tomas que vai atrás dela. Quando vai para Praga viver com Tomas, Tereza torna-se fotógrafa. Ora, ela acaba por fotografar vários momentos pertinentes da invasão albergando a esperança de que essas mesmas fotos denunciarão todos os abusos cometidas pelas forças soviéticas. Esta parte específica do livro é muito elucidativa da atmosfera de perseguição e instituição de um regime totalitarista no país. 

O próprio Tomas acaba por ser vítima do regime. De uma forma velada e recorrendo a truques de comunicação violando, por completo, o núcleo da liberdade de expressão, é digna de nota uma conversa que Tomas tem comum agente do governo que pretende que este escreva uma carta de apoio à União, ao Socialismo e à governação instituída. Em vários dos seus escritos, Kundera defendeu a razão sobre a emoção argumentando que muitos dos piores desastres da humanidade foram impulsionados por Homens que, de forma cega, obedeceram aos ditames do coração. A este respeito, permitam-me ler um excerto onde Tomas compara Édipo aos comunistas: 

“Então Tomas lembrou-se da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com a própria mãe, mas, no entanto, quando compreendeu o que lhe tinha acontecido, não se sentiu inocente. Não pôde suportar o espetáculo da desgraça que causara com a sua ignorância, vazou os olhos e, cego para todo o sempre, deixou Tebas.  

Tomas ouvia os comunistas a defender aos berros a brancura das suas almas e pensava: por causa da vossa inconsciência, talvez este país tenha ficado privado de liberdade por vários séculos e ainda se põem a berrar que estão inocentes? Como é que ainda podem olhar para aquilo que vos rodeia? Como é que não ficam apavorados? Ainda são capazes de ver? Se ainda tivessem olhos, deviam mas era vazá-los e sair de Tebas!” 

O que Tomas aqui faz é dizer-nos que não importa as intenções mais nobres ou os ímpetos mais puros. Vejamos as consequências e soframos pelas mesmas.

Édipo, já agora, surge muitas vezes referido n’A Insustentável Leveza do Ser , não só a propósito da pátria, mas também das relações de cada uma das personagens com os seus progenitores. Reparem que o pais de Tomas o excluíram das suas relações em virtude do próprio tomas ter decidido nunca mais visitar o filho. Tereza foge para Praga para escapar à sua mão com quem mantém uma relação digna de estudo e Sabina, tendo já perdido os pais, refere que a sua primeira traição foi ao seu pai. No fim, todos acabam por desistir da sua pátria que vem do latim patria, cuja grafia permanece como tal, associado a pater, cujo genitivo é expresso em patris, referindo-se a ‘pai’, e estendido à ideia de ‘antepassado’. 

A narrativa de Kundera é daquelas cheia de camadas. Logo nos primeiros capítulos, o leitor fica com a sensação de que já sabe a história toda. Vai-se surpreender porque estas personagens são emocionalmente labirínticas sendo que a sua desconstrução vai sendo feita por camadas. 

 A ação d’A Insustentável Leveza do Ser decorre entre 1968 e 1980 refletindo, aqui, um período da história muito específico que como, já vimos, não foi de todo indiferente a Milan Kundera. A estrutura deste romance, de cunho político-filosófico, divide-se em sete partes sendo que os capítulos vão alternando a histórias das personagens com passagens de especulação política e filosófica sendo que aqui radicou, para mim, o melhor de todo o livro.

Este é um livro sobre História e sobre histórias. É sobre o exílio das personagens e do próprio Kundera, sobre o século XX e sobre qualquer cidadão europeu no Século XX. É sobre a condição humana, sobre o corpo e a alma, sobre o individual e o coletivo. É sobre o conflito do homem consigo mesmo e com o outro. É sobre existir e sobre o peso que cada um carrega no seu ser. 

Um romance inesquecível! 

“A Insustentável Leveza do Ser” foi adaptado ao cinema em 1988  pelas mãos de Philip Kaufman. Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin são os atores encarregues de dar vida Tomas, Tereza e Sabina, respetivamente. Desde então, Milan Kundera nunca mais autorizou a adaptação cinematográfica dos seus romances.

Confesso que ainda não vi o filmes, mas as críticas são fantásticas. 

Uma curiosidade, apesar de publicado em 84, A Insustentável Leveza do Ser só foi publicado em checo, em 2006. Treze anos depois, foi devolvida a Milan Kundera a cidadania checa.

VEREDITO: 5/5

Boas Leituras! 

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