Baba e ranho: Uma Vida à Sua Frente de Romain Gary

Hoje venho falar-vos de La Vie Devant Soi de Emile Ajar que é como quem diz Uma Vida à Sua Frente do escritor francês Romain Gary. Emile Ajar era, na verdade, um pseudónimo do Autor Romain Gary que, dessa forma, conseguiu vencer o seu Segundo Prémio Goncourt, em 1975.  Foi o único Autor, até hoje, que conseguiu vencer dois prémios Goncourt, o prestigiado e cobiçado prémio de literatura francesa.

Antes de vos falar sobre a sua narrativa, deixem-me já adiantar que este livro deixou-me em lágrimas. Foi das histórias mais cruas e bonitas que eu já li até hoje. 

“A primeira coisa que vos posso dizer é que morávamos num sexto andar sem elevador e que, para a Madame Rosa, com todos aqueles quilos que transportava consigo e só com duas pernas, era uma verdadeira fonte quotidiana, com todas as preocupação e dificuldades. Ela recordava-nos isso sempre que não se queixava de outra coisa, porque era também judia. A sua saúde não era famosa, e posso dizer-vos desde já que era uma mulher que teria merecido um elevador.” 

É desta forma deliciosa que tem início a narração de Mohammed ou Momo, como toda a gente lhe chama, o grande protagonista de Uma Vida à Sua Frente. Momo, do alto dos seus aparentes dez anos, conta-nos que conheceu Madame Rosa, aos três, depois do pai o entregar para que esta velha senhora judia o criasse. A mãe de Momo, tal como as mães das restantes crianças que vivem e viveram com Madame Rosa, era prostituta, tendo morrido há já vários anos.  Então Momo vive com esta Madame Rosa, que terá também ela uma grande história de vida (é uma sobrevivente de Auschwitz) e com outras crianças que vão chegando e saindo, consoante a disponibilidade das suas famílias para as receberem. 

Diz-nos Momo “Não vos posso falar de todos os filhos de putas que vi passar em casa da Madame Rosa, mas havia poucos como eu que estavam ali como definitivos. Os mais antigos a seguir a mim eram o Moisés, o Banania e o vietnamita, que acabou por ser acolhido por um restaurante da rue Monsieur-le-Prince e que não reconheceria se o visse hoje, já foi há tanto tempo.”

Momo é , assim, o único que permanece tornando-se, por isso, no grande apoio de Madame Rosa que, por conseguinte, o trata aqui um neto, não obstante a velha senhora ser judia e o pequeno muçulmano. A este respeito, Momo conta-nos: 

“Durante muito tempo eu não sabia que era árabe, porque ninguém me insultava. Só fiquei a saber na escola. Mas nunca andava à pancada, dói sempre quando batemos em alguém.” 

No contexto do conflito multicultural e político que separa árabes de judeus, a relação entre Momo e Madame Rosa assume um especial significado. Aliás, depois de lido Uma Vida à Sua Frente, eu fiquei com esta maravilhosa sensação de que, acima de tudo, este é um romance de inclusão, de pertença, de encontrar o nosso lugar. 

Vejam que o Momo vive com a Madame Rosa, num bairro marginalizado na periferia de Paris. Aqui, ele tem contacto com todas as raças e credos, com pessoas socialmente ostracizadas. Momo vai-nos apresentando vários dos habitantes da sua rua: temos o senhor Hamil, muçulmano quededicou sua vida  à venda ambulante de tapetes por toda a França; o Senhor N’Da Amédée, um proxeneta negro vindo da Nigéria que recorre a Madame Rosa para que esta lhe escreva cartas para a família, a Madame Lola, um travesti senegalês que se prostitui, entre inúmeros vizinhos que conhecem e tratam Momo com familiaridade e carinho. 

Pudera, Momo é absolutamente encantador. Apaixona todos, inclusive o leitor. Isto porque é um daqueles miúdos demasiado adultos para a sua idade que, compreendendo bem a sua realidade, a vai descrevendo com uma boa dose de humor negro, ironia e subtil tristeza. As suas observações, apesar da falta de escolaridade, são sempre certeiras e sagazes impulsionando no leitor as mais pertinentes reflexões sobre a diferença, a vida, o envelhecimento ou a morte, no caso a morte digna. 

Uma Vida à Sua Frente é também sobre Paris e as suas injustiças. Logo nos primeiros capítulos, o leitor fica a saber que o Senhor Hamil adora Os Miseráveis de Victor Hugo (já agora, é curioso porque num curto espaço de tempo, este é o segundo livro com referencias aos Miseráveis. Já Terra Alta de Javier Cercas, lido em novembro/dezembro tem um protagonista que, para passar o tempo na cadeia, lê várias vezes seguidas os Miseráveis de Victor Hugo. A juntar à festa, a semana passada passou um documentário muito interessante sobre Os Miseráveis na rtp 2. Ainda não li, mas acho que o Universo está a dar-me sinais para o fazer) e chama, inclusivamente, o nosso Momo de Victor. O próprio Momo diz-nos que a sua narrativa é o seu “Miseráveis”. Não tendo ainda lido os Miseráveis, mas sendo esse um grande romance da literatura universal, conheço a história e sua relevância. Sei, por exemplo, que se trata de um romance que denuncia as desigualdades vividas em França, concretamente, em Paris, no século XIX. Agora, tragam essa desigualdade para o século XX e vejam-se no bairro de Momo. O Autor instiga-nos a refletir sobre uma aparente fragmentação de Paris com os Champs-Elysées e os seus bairros sociais.  

Instiga-nos, igualmente, a refletir sobre a morte e sobre o direito a morrer: 

“Sabia que a Madame Rosa estava desesperada, temia sempre que me acontecesse alguma coisa. Quase já não saía, porque já não a conseguíamos levar para cima. No início esperávamos por ela em baixo, quatro ou cinco, de nós e todos os miúdos participavam, quando ela voltava, empurrando-a. Mas agora, ela andava cada vez menos por cá, já não tinha pernas e coração que chegassem e o seu fôlego não teria bastado a uma pessoa de um quarto do seu tamanho. Não queria ouvir falar do hospital onde nos fazem morrer até ao fim, em vez de nos darem uma injeção. Dizia que, em França, estão contra a morte serena e que nos obrigam a viver enquanto formos capazes de sofrer. A Madame Rosa tinha um pavor à tortura e dizia sempre que, quando tivesse que chegasse, far-se-ia abortar. 

(…)

O senhor Hamil diz que a humanidade não passa de uma vírgula no grande livro da Vida, e quando um velho diz uma palermice tal, não vejo o que possa eu acrescentar. A humanidade não é uma vírgula porque quando a Madame Rosa olha para mim com os seus olhos judeus, ela não é uma vírgula, é mais  Grande Livro da Vida por inteiro, e eu não o quer ver.”

Numa altura em que parecemos estar mais perto da legalização da eutanásia no nosso país e em que movimentos populistas e xenófobos tomam a dianteira política do nosso país, Uma Vida A Sua Frente pode ser a leitura que todos precisamos de fazer. 

Uma pequena nota biográfica sobre o Autor. Roman Gary nasceu na Lituânia em 1914, no seio de uma família judaica, tendo, porém, se convertido ao catolicismo, quando emigrou com a sua mãe para Nice, França. Gary lutou na Segunda Guerra Mundial, estudou Direito, foi diplomata, Autor e Realizador de Cinema. Teve uma vida conturbada que terminou, infelizmente, cedo de mais por suicídio. 

Uma Vida à Sua Frente foi adaptado cinematograficamente, o ano passado, pela Netflix. Não vi ainda o filme, mas pela sinopse vejo que há diferenças relativamente ao livro, nomeadamente no que concerne à cidade onde se passa a narrativa. 

Por último, não posso terminar o episódio de hoje sem deixar um profundo agradecimento à minha grande amiga Vanessa Silva que me ofereceu, de forma muito apaixonada, Uma vida à Sua Frente de Roman Gary. 

VEREDITO: 5/5

Boas Leituras!

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