Um semestre, 10 grandes livros

Parece inacreditável, mas o ano já vai a meio. Não sei se é do Covid, mas tenho a sensação de que ainda ontem estávamos em fevereiro de 2020. A verdade é que já não estamos e 2021 não tem sido o ano incrível que todas as publicações de ano novo faziam crer que seria. Tenho lido muito menos do que nos anos anteriores, andado pouco inspirada e, para ajudar, tive Covid. Ainda que não recomende a experiência a ninguém, a verdade é que o Covid teve uma vantagem: apresentou-me a escrita como terapia, razão pela qual resolvi ressuscitar o blog.

Sei que, hoje em dia, poucos são os que leem blogs, mas há algo de mágico, talvez por ser tão antigo, no ato de ler o que outro escreveu. Isto porque contraria esta noção de conteúdo fast food cada vez mais potenciada pelos chamados reels ou tiktoks. Quando é que foi a última vez que tu leste um artigo completo publicado por outrem? Eu sei, eu sei. Já não há grande tempo para isso e os vídeos com os seus efeitos, bandas sonoras e a imagem de alguém a falar diretamente connosco são mais aprazíveis e, talvez, humanos numa altura de maior isolamento. Eu também consumo muito conteúdo audiovisual, principalmente podcasts. Aliás, tenho um (não se esqueçam de ouvir e subscrever!), mas a escrita está cá há tantos séculos. Não é à toa que isto é uma plataforma de elogio à literatura.

Eu adoro ler o que os outros escrevem e, em tempos, também gostei eu própria de escrever. Entretanto, a vida meteu-se no meio e dei por mim só a escrever conteúdos profissionais. Com o Covid, voltei a sentir necessidade de escrever só porque sim. Divagar sem rumo nesta amálgama que são os meus pensamentos reduzindo-os a atribuindo-lhes uma certa tangibilidade.

Em seguimento, aqui estou eu para vos trazer as minhas melhores leituras do primeiro semestre.

(obs: a ordem é puramente aleatória)

Tanta Gente, Mariana de Maria Judite de Carvalho (1988)

2021 foi também o ano em que descobri a sensível e poderosa prosa de Maria Judite de Carvalho. O primeiro volume da sua obra completa publicada pela Almedina e posso vos afiançar que não há um conto que não seja excelente. Há, porém, um que se destacou porque me falou de uma forma muito íntima e pessoal. Refiro-me ao soberbo Tanta Gente, Mariana. A Autora conta-nos, em poucas páginas, a história de Mariana que descobre que vai morrer. Só, no seu quarto, ela passa em revista toda a sua vida refletindo sobre o falecimento prematuro da mãe, o carinho extremo e triste do pai, o seu casamento falhado, as dificuldades de uma vida comum. Uma reflexão profunda sobre a solidão que teima em persistir, ainda que estejamos rodeados de multidões. Devastador e incrivelmente pertinente.

Opinião completa brevemente disponível.

Macbeth de William Shakespeare (1603-1607)

Das histórias mais viscerais que tive o prazer de ler. A jornada do general Macbeth que, ao voltar de uma importante e sangrenta batalha, trava conhecimento com três bruxas que o profetizam como o novo Rei da Escócia. Alimentado por uma ambição desmedida, orquestra em conluio com a esposa, Lday Macbeth, a morte do próprio primo, o Rei Duncan I da Escócia e inicia, consequentemente, um reinado marcado pela tirania. Escrita entre 1603 e 1607, Macbeth é a mais curta e sombria tragédia de William Shakespeare. Adaptada inúmeras vezes ao teatro, televisão e cinema, destaco a adaptação cinematográfica lançada em 2015 e realizada por Justin Kurtzel, Um filme sublime que faz jus ao texto original Shakespeareano.

Podes ouvir a minha opinião aqui.

O Doente Inglês de Michael Ondaatje (1992)

Um romance íntimo, histórico e profundamente tocante. As palavras de Michael Ondaatje marcam de forma permanente. São desestabilizadoras e deixam-nos lânguidos tal é a sua potência e sensualidade. O romance parece uma manta de retalhos constituída por várias histórias e segredos. A trama revolve quatro personagens num eterno luto pela guerra que viveram e, acima de tudo, pelas memórias que não vão poder repetir. Kip, Hanna, Caravaggio e o doente inglês sem nome ou memória ficarão para sempre comigo. O Doente Inglês teve uma aclamada adaptação ao cinema em 1997 e venceu o Booker Prize, no ano da sua publicação e ainda o Golden Man Booker Prize, em 2018.

Podes ouvir a minha opinião aqui.

Uma Vida à sua Frente de Romain Gary (1975)

Se houvesse uma distinção para o livro que mais me fez chorar, Uma Vida à Sua Frente ganhava sem adversários à altura. Um romance lindíssimo passado numa Paris marginalizada onde raças e credos esquecem as diferenças para se unir. A história é narrada por Momo que, no alto dos seus aparentes dez anos, nos conta como foi deixado aos cuidados de Madame Rosa, depois da morte da mãe. Quando a sua cuidadora adoece, Momo decide carregar nas costas o fardo de cuidar dela e garantir que os seus desejos são cumpridos. Uma leitura muito pertinente que toca temas fraturantes e importantíssimos como o direito a morrer com dignidade, preconceito social, intolerância religiosa, homofobia e a vida nos bairros sociais de Paris. Se ainda não leram, aconselho-vos a fazê-lo rapidamente. Deixem-se contagiar pelo pequeno Momo.

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A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera (1984)

A minha estreia com Milan Kundera foi absolutamente gloriosa. A Insustentável Leveza do Ser é, talvez, o romance mais conhecido de Kundera e, seguramente, um dos mais emblemáticos do século XX. Um livro sobre História e sobre histórias. É sobre o exílio das personagens e do próprio Autor, Milan Kundera, sobre o século XX e sobre qualquer cidadão europeu no Século XX. É sobre a condição humana, sobre o corpo e a alma, sobre o individual e o coletivo. É sobre o conflito do homem consigo mesmo e com o outro. É sobre existir e sobre o peso que cada um carrega no seu ser. Um romance de cunho filosófico-político com uma trama bem construída, personagens inesquecíveis e muita especulação.

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Todos os Nomes de José Saramago (1997)

A história do sr. José que trabalhava na conservatória do registo civil e que gostava de colecionar dados de pessoas conhecidas. Um dia, descobre, por acaso, a ficha de uma mulher completamente desconhecida e fica fascinado. Inicia, consequentemente, uma busca pela ilustre senhora, busca essa que o levará a falar com seres animados e inanimados, a refletir sobre o que existe dentro do ser humano e que nada tem que ver com o seu nome. Um romance profundamente saramaguiano com as suas longas frases, falta de pontuação, sentido de humor cáustico e uma certa noção de absurdo. Tudo ao serviço da condição humana, tema central de Todos os Nomes. Uma busca ontológica que apaixonará qualquer fã de Saramago. Não aconselho a quem nunca leu o Nobel Português porque este é daqueles que requer alguma familiaridade com o estilo.

O País dos Outros de Leïla Slimani (2021)

Não me canso de ler Leïla Slimani. Para mim, é das melhores vozes atuais da literatura contemporânea, capaz de contar uma história de forma envolvente, profunda e didática. Em particular, destaco a sua sensibilidade e cúria na criação de personagens femininas, sempre complexas e sedutoras. Em O País dos Outros não foge à excelente qualidade narrativa a que já habituou os seus leitores. Na verdade, supera-a ao enveredar por um romance histórico sobre o colonialismo que reflete um pouco da sua própria história pessoal. A narrativa passa-se nos anos que antecedem a independência de Marrocos, em 1956, e revolve a família criada por Mathilde, jovem alsaciana de ascendência cristã, e Amine, marroquino e muçulmano. Um romance sobre conflito entre colonizado e colonizador, independentistas e imperialistas, muçulmanos e cristãos, passado e futuro, marido e mulher. A primeira parte de uma trilogia que correrá as diferentes gerações de uma família que nasce da diferença.

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Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie (2014)

Se houve livro que me ensinou algo, foi Americanah da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Com uma prosa fluída e personagens cativantes, Chimamanda conta-nos a história de Ifemelu e Obinze, namorados durante grande parte da adolescência, que partem da Nigéria para destinos diferentes vivendo os perigos e dificuldades da emigração, do multiculturalismo e do racismo em países predominantemente brancos. Simultaneamente, a par com o crescimento dos protagonistas, o seu país natal, a Nigéria, também muda profundamente tornando a tarefa de regressar árdua e propensa ao conflito entre a tradição e o progresso. Americanah foi o terceiro livro da Chimamanda que li. Tornou-se um favorito da vida. Daqueles romances que transborda empatia e inteligência.

Opinião completa brevemente disponível.

Capitães da Areia de Jorge Amado (1937)

Capitães da Areia é a história das histórias de jovens e crianças órfãs, marginalizadas e humilhadas que, em face da miséria, se unem e aterrorizam as hipócritas pessoas de “bem” da Bahia, nos anos 30. Este bando, tão perigoso e frágil, dedica os seus dias a praticar pequena criminalidade ao passo que as noites são passadas num trapiche sem quaisquer condições. Racismo, criminalidade infantil, desigualdade social, brutalidade policial, defesa das religiões afro-brasileiras, na época muito perseguidas e indiferença social perante a pobreza e a exclusão são alguns dos temas abordados por Jorge Amado em Capitães da Areia, um romance forte e carismático. Entrou para a lista de favoritos da vida e deixou-me entusiasmada com o Autor cuja obra completa pretendo ler.

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A Religiosa de Denis Diderot (1796)

A Religiosa chegou-me às mãos por mero acaso numa visita a um alfarrabista de Coimbra. Confesso que pouco conhecia da narrativa sendo que foi o nome de Diderot, conhecido filósofo iluminista, que me chamou a atenção. Também por acaso, acabei por o ler em apenas dois dias, tão incrível, pungente e assertiva que é a escrita de Diderot. Trata-se de uma sátira cruel ao regime dos claustros e ao papel da religião, em concreta do catolicismo, que coloca em causa a própria natureza do Homem que sendo intrinsecamente social se vê sujeito à ao isolamento. A obra analisa, no caso, os efeitos terríveis que a clausura tem na estrutura psicológica e física de uma jovem mulher que mais não quer do que ser livre, ainda que tal implique que ela fique desamparada e despojada de tudo a que tem direito. Um romance verdadeiramente inesquecível que deve, contudo, ser lido tendo sempre presente o contexto histórico em que foi escrito.

O primeiro semestre comprovou a máxima de que quantidade nada tem a ver com qualidade. Ainda que tenha lido menos livros em comparação com os anos anteriores, tive imensa dificuldade em selecionar os melhores dos melhores. Soube escolher bem as minhas leituras e, por isso, posso dizer que não li um único livro que tenha considerado medíocre. Desde o original O Ensaio sobre o Dever de Rute Simões Ribeiro ao enigmático House of Leaves de Mark Z. Danielewski, passando por O Casamento de Nelson Rodrigues, A Sombra do Vento de Patrick Rothfuss ou O Assassinato de Roger Ackroyd da mestra Agatha Christie, entre outros, nenhum me deixou indiferente. Não posso, por isso, deixar de agradecer o privilégio de ter travado caminho com tão ilustres contadores de histórias.

E vocês? Leram bem, este semestre?

Boas Leituras!

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