Ensaio sobre o Dever (ou a Manifestação da Vontade) de Rute Simões Ribeiro

Numa sociedade distópica, os cidadãos são chamados, por uma qualquer entidade de natureza desconhecida, a escolher um único sentido com o qual viverão, aparentemente, resto das suas vidas. Olfato, paladar, audição, tacto ou visão, a escolha não é fácil, mas mandatória. No dia seguinte, ao meio-dia, todos ver-se-ão a braços com a ausência dos quatro sentidos preteridos. Tão inusitada situação obriga todos, e em especial, as figuras estaduais a um processo de adaptação e gestão hercúleo. Afinal, o que aconteceria se todos escolhessem o mesmo sentido?

A primeira vez que li sobre o Ensaio sobre o Dever da Rute Simões Ribeiro foi numa notícia sobre o premio Leya. O romance, então com o título Cegos e Surdos, foi um dos finalistas do mencionado, em 2015. Não obstante o reconhecimento do seu mérito, acabou por não merecer publicação através da editora. E que triste decisão essa. Em Ensaio sobre o Dever, a Rute apresenta-nos uma narrativa impactante e original. E fá-lo recorrendo a um estilo muito próprio que me remeteu para o universo saramaguiano. Aqui também não há nomes ou lógica. Há, sim, uma constatação da fragilidade do ser humano quando forças maiores se impõe. Mais do que um ensaio sobre o dever, este é um ensaio sobre a submissão já que em face de uma ordem absurda e de proveniência desconhecida, poucos são os que se insurgem. Os sentidos vão, o mundo muda e o individualismo dá lugar ao coletivismo, seja por imposição política, seja por imposição da natureza.

Um romance extremamente inteligente e estimulante não só pela história que conta, mas também pela linguagem da Autora que exerce um excelso domínio sobre a sua escrita. Rute Simões Ribeiro, das minhas maiores descobertas literárias de 2021.

Sinopse:

«Ensaio sobre o Dever (Ou a Manifestação da Vontade)», de Rute Simões Ribeiro, é o primeiro romance desta escritora portuguesa e foi uma das cinco obras Finalistas do Prémio LeYa 2015, com o título que recebeu originalmente, “Os Cegos e os Surdos”.

Com uma escrita e um imaginário fundados em José Saramago e Alfred Hitchcock, este livro enquadra-se dificilmente num género literário, desvinculando-se de limites normativos que pudessem condicionar a narrativa. Refletindo, com grande subtileza, um dos períodos mais conturbados da história mundial, a autora desenvolve uma teia de personagens e de eventos insólitos, sociológicos e políticos, que o leitor consegue imaginar poder passar-se na atualidade, exibindo um profundo domínio sobre as palavras e um particular sentido de humor.

Os cidadãos do mundo inteiro são chamados a tomar uma decisão por uma entidade desconhecida. Têm de escolher um sentido apenas, «a saber», pode ler-se na misteriosa mensagem, «visão, audição, olfacto, tacto, paladar, com exclusão do apelidado sexto sentido, dado que, neste último caso, é o sentido que escolhe o portador, em caso algum podendo ocorrer o inverso». Receando o impacto da escolha livre na organização da sociedade, o governo decide obrigar os cidadãos eleitores a escolherem o sentido determinado em conselho de ministros, sob pena de penalização no rendimento, chamando as pessoas, em nome da nação, ao exercício de um dever colectivo de reorganização após a «extracção dos sentidos». Perante a ordem do governo, os partidos da oposição apresentam moções de censura e os auto-apelidados «guerrilheiros da liberdade» formam «brigadas dos sentidos», ainda que acabando estas por «forçar as pessoas a serem livres». Três personagens principais entrecruzam-se na história, um primeiro-ministro, um guerrilheiro da liberdade e uma mãe, partilhando, de algum modo, sentimentos de dever e de vigilância constante. Após a instituição de novos hábitos, ajustados à nova «ordem de sentidos», o primeiro-ministro depara-se com um inusitado e perturbador pedido do país vizinho, em nome de um antigo acordo a que está vinculado.

“Naquele dia, os olhos cegaram e os ouvidos ensurdeceram, entre outros sentidos que emudeceram, a não ser que outra tivesse sido a preferência expressa, em sede própria, do cidadão maior de idade.”

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