O Casamento de Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues é daqueles Autores que, quando conhecemos, amamos ou odiamos. Figura polémica da cena literária e jornalística brasileira do século XX, foi apelidado de “tarado nacional” e “deflagrador da estética de mau gosto” em razão do carácter, tido como “obsceno”, da sua obra. O próprio Nelson Rodrigues, conhecendo a sua infâmia, intitulou-se “anjo pornográfico”. Numa entrevista, disse que toda a família tinha um momento em que começava a apodrecer. O Casamento, o seu único romance em nome próprio, concretiza precisamente esta ideia de podridão familiar.

O casamento a que o título de refere é de Glorinha. Um dia antes do seu enlace, o seu pai, Sabino Maranhão, um empresário bem sucedido, não pode estar mais satisfeito. Glorinha, perfeitinha, é a sua filha favorita e vai casar virgem, imaginem só! A família de Sabino é um exemplo. Uma família de classe alta do Rio de Janeiro onde todos agem de acordo com a norma social. Não há nada que se lhes possa ser apontado. Sabino é o grande pilar, o homem reto cuja moral parece ser intocável. Quase tão intocável como Glorinha que todos desejam. É nesta cena doméstica que Nelson Rodrigues liberta todos os seus demónios: morte, escatologia, sexo, incesto e adultério. Tudo regado com muita ironia e um sentido de humor cáustico. A história é contada por um narrador que joga com o leitor, fornecendo-lhe informações contraditórias. Cabe a este último desvendar a “verdade” das personagens, ver as rachaduras no quadro aparentamente perfeito que nos querem impingir, para além da sua hipocrisia. N’O Casamento há uma exacerbação das emoções e facilmente os mais curriqueiros factos terminam em tragédias dignas de Sófocles.

Sem dúvida que este é um livro fascinante. Deve ser lido tendo sempre presente a crítica que lhe está subjacente. As palavras, as frases, as cenas são chocantes, mas também cómicas (ex. A forma como Sabino se refere à filha é absurdamente hilariante). O estilo de Nelson é muito visual. Não me surpreendeu perceber a enorme influência que as suas obras tiveram no cinema brasileiro, em especial na chamada pornochanchada, género que se popularizou na década de 70 no Brasil e que se caracterizou pela exploração vulgar do erotismo como forma de questionar os valores morais e costumes vigentes na época.

As personagens d’O Casamento não passam de caricaturas que servem um propósito maior definido pela censura durante a ditadura brasileira como o de atentar “contra a organização da família”. Mais do que a organização, parece-me que Nelson quis atingir o hipócrita, o reprimido sexualmente que se esconde atrás dos bons costumes abalando assim as fundações de uma classe pautada pelo parecer ser, ao invés do ser.

Sinopse:

“O único romance escrito por Nelson Rodrigues, pela primeira vez em Portugal.

Em apenas 24 horas – aquelas que antecedem o casamento de Glorinha, menina dos olhos do seu pai (até em demasia) – o autor concentra nesta narrativa um desfile intenso de todas as obsessões que tanto o mitificaram como o tornaram maldito: adultério, incesto, moralismo, sexo e morte. Sabino, o pai, é informado que o seu genro foi apanhado a beijar outro homem e tem de decidir o que fazer: o problema é que um casamento não se adia, nem que para isso todas as vidas envolvidas fiquem viradas do avesso.

“O Casamento” é o único romance em nome próprio no meio das dezenas de peças de teatro e centenas de crónicas e ficções curtas escritas por Nelson Rodrigues. O livro foi feito por encomenda, concluído em apenas dois meses, e foi confiscado pela ditadura brasileira logo depois de ter sido publicado em 1966 por ser considerado «um atentado contra a organização da família».”

Boas Leituras! 

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