O Amor (Inesquecível) nos Tempos de Cólera de Gabriel García Márquez

O Amor nos Tempos de Cólera não é uma história de amor, mas é um romance absolutamente inesquecível e incrivelmente humano.

Ano da primeira publicação: 1985

Rating: 5/5

Esta opinião é muito suspeita porque sou fã confessa do Gabriel García Márquez. Simplesmente, não há como o homem falhar. A sua escrita é absolutamente apaixonante e deixa-me sempre cambaleante. Para quem nunca leu nada do Autor, aconselho começar por Crónica de uma Morte Anunciada que é delicioso e hilariante. São cerca de cem páginas carregadas de lirismo, personagens cativantes e frases de levar às lágrimas.

O Amor nos Tempos de Cólera é um romance completamente diferente de Crónica de uma Morte Anunciada. É bastante mais longo, tem um tom mais dramático e percorre, fundamentalmente, a vida de três personagens: Forentino Ariza, Fermina Daza e Juvenal Urbino. Este romance lembra-nos, fundamentalmente, que o amor é estranho e tem tudo que ver com a nossa mortalidade, assumindo dimensões diferentes consoante as diferentes etapas do nosso próprio envelhecimento. Ao contrário de Cem Anos de Solidão, por exemplo, O Amor nos Tempos de Cólera tem pouco realismo mágico. Aqui, a magia dá lugar à crueldade do tempo, ao processo natural de definhamento humano, à vulnerabilidade da velhice e aos efeitos da cólera, doença e sentimento.

O romance de García Márquez inicia-se com um suicídio. Numa pequena localidade da América do Sul, Juvenal Urbino, médico respeitado e admirado, é chamado ao catre de campanha onde o seu parceiro de xadrez, Jeremiah de Saint-Amour vivia, para declarar a sua morte. Jeremiah, inválido de guerra e fotógrafo de crianças, pôs-se “a salvo das inquietações da memória com um defumador de cianeto de ouro” para não ter de enfrentar o tempo, no caso, a sua velhice e degeneração. O suicídio foi decidido, anos antes, quando em conversa com a namorada, o veterano confessou que havia de se matar no seu sexagésimo aniversário. E assim O Amor nos Tempos de Cólera inicia-se com a morte de um homem que viveu os horrores da guerra, viu e conviveu com a podridão, a dor e a destruição, e que, no entanto, não conseguiu enfrentar os problemas que invariavelmente acompanham o avançar da idade, problemas esses que comprovam o quão ridícula é a figura humana, noção que nos acompanha ao longo de todo o romance.

Muito tempo antes, numa praia solitária do Haiti, onde jaziam os dois, nus depois do amor, Jeremiah de Saint-Amour dissera, num suspiro repentino: “Nunca hei-de ser velho”. Ela interpretou-o como um propósito heroico da luta contra os estragos do tempo, mas ele foi mais explícito: tinha a determinação irrevogável de acabar com a vida aos sessenta anos.

Página 24

Pouco depois da morte de Jeremiah, morre Juvenal Urbino, deixando viúva, Fermina Daza que, inesperadamente, reencontra o seu passado no dia do funeral do marido, na pessoa de Florentino Ariza, seu apaixonado que esperou por aquele encontro “cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias“.

A partir daqui, O Amor nos Tempos Cólera retrocede quase cinquenta e dois anos e começa a narrar o passado destas personagens, desde a adolescência, quando Florentino se apaixonou por Fermina, até aquele momento quando, em face da viuvez desta, aquele não hesita e lhe proclama o seu eterno amor. Sim, O Amor nos Tempos de Cólera podia ser a obsessão em tempos de cólera. Florentino nunca casou ou assumiu qualquer tipo de compromisso com alguém. Ao invés, não podendo ficar com Fermina, Florentino dedicou-se à promiscuidade, aos affairs e à ilusão do sentimento. Nunca se apresentou com nenhuma mulher, porque sempre acalentou a ideia de que iria ficar com Fermina, nem que fosse depois da morte do marido dela. Por seu lado, Fermina não ignorava que Florentino existia, mas seguiu a sua vida, casando, viajando, tendo filhos e dedicando-se à família. Já Juvenal Urbino, sem prejuízo do casamento com Fermina, dedicou-se a combater a cólera, pandemia que assolou o mundo, entre 1846 e 1860, tendo perdurado na América Latina até ao século XX.

O triângulo amoroso d’O Amor em Tempos de Cólera conquista pela forma como retrata os efeitos do tempo nas relações. O leitor acompanha as personagens que lhes dão corpo desde a adolescência à velhice, vivendo consigo as suas dores, loucuras, perversidades e misérias. Gabriel García Márquez escreve sobre a condição humana não hesitando em falar da morte e da vida, tal como elas são. Pelo meio, vai explorando os meandros e as complexidades do amor, seja o de Juvenal e Fermina, seja o de Florentino e a sua ideia de Fermina.

Ao contrário da opinião de vários outros leitores, não acho que Fermina e Florentino se tenham apaixonado verdadeiramente. Do lado de Fermina, houve um fascínio próprio da tenra idade e do desenvolvimento da sua sexualidade, e do lado de Florentino, há uma idealização do amor à qual é atribuído o rosto da jovem Fermina, mas não a sua pessoa que, em rigor, Florentino nunca chega a conhecer verdadeiramente. E quantas vezes isso não nos acontece? Amar a ideia, ao invés da pessoa. É preciso ter em mente que Fermina e Florentino conhecem-se muito jovens, numa época que os sentimentos são moldados por hormonas e sonhos. E se Fermina consegue ultrapassar este estádio de desenvolvimento, crescendo e vivendo, o mesmo não se pode dizer de Florentino que vive aprisionado à sua própria juventude e, por inerência, ao seu primeiro amor (assumo o meu cinismo, mas esta foi a minha interpretação).

As personagens do romance de García Márquez, tão bem construídas, têm as suas dinâmicas complementadas pelas descrições que o Autor nos apresenta, de uma forma apaixonante, dos ambientes onde as mesmas se movimentam. Da mesma forma, somos introduzidos na história do final do século XIX, início do século XX, vendo as transformações vividas num país, que se presume ser a Colômbia, assolado pela doença e pela guerra civil.

O Amor nos Tempos de Cólera não é uma história de amor, mas é um romance absolutamente inesquecível e incrivelmente humano. Destaco a falta de julgamento moral de Gabriel García Márquez relativamente às suas personagens e a forma empática com que ele as retrata, principalmente nos momentos de desespero. Pelo meio, surge também o seu sentido de humor, característico dos seus romances, que nos consegue sempre arrancar algumas gargalhadas porque, como disse, há uma noção subjacente a todo o romance, que é a de que somos realmente seres ridículos, principalmente nas nossas misérias.

Teve medo de que aquela visão fosse um aviso da morte e teve pena. Atreveu-se a dizer para consigo que talvez tivesse sido feliz com ele, só com ele naquela casa que ela tinha restaurado para ele e com tanto amor como ele tinha restaurado a sua para ela, e a simples suposição assustou-a, porque lhe permitiu dar-se conta dos extremos da infelicidade a que tinha chegado.”

Página 228

Sinopse:

O Amor nos Tempos de Cólera constitui na obra de Gabriel García Márquez um marco equiparável ao do célebre Cem Anos de Solidão, considerado até hoje, a sua obra-prima.

Queres ler este livro? Podes comprá-lo aqui, e ajudar a página a crescer, ou requisitar numa biblioteca perto de ti.

Boas Leituras!

Daniela

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s