O Rei do Inverno de Bernard Cornwell: Uma viagem ao mito arturiano

@portasetenta

Um olhar realista sobre as histórias à volta do Rei Artur que agradará a fãs da lenda e de romances épicos com conflitos bélicos e alguma intriga política

Ano da primeira publicação: 1995

Rating: 3/5

Se há mito que tem alimentado a arte ao longo dos séculos é o arturiano. Filmes, livros, peças de teatro, músicas… a influência é real e palpável, ao contrário da existência do próprio Rei Artur que alguns contestam. Mas. hoje, a existência ou não de Artur acaba por ser um mero detalhe para os milhões de apaixonados pela lenda. As aventuras de Artur conquistaram e a mensagem de valentia e nobreza atravessou gerações continuando, no século XXI, vibrante e igualmente apaixonante. Confesso que nunca fui uma fã tão fervorosa da lenda de Artur tendo apenas travado conhecimento mais próximo com a mesma através da excelsa obra “As Brumas de Avalon” de Marion Zimmer Bradley, lida há cerca de dois/três anos. Mesmo então, o meu fascínio nunca foi por Artur ou Merlim, mas por Morgana, a grande protagonista de Bradley, Talvez por isso, O Rei do Inverno de Bernard Cornwell, não seja o livro inesquecível que eu pensei que ia ser. Não me interpretem mal porque é um óptimo pedaço de ficção, mas não posso dizer que tenha tocado este meu pobre coração de leitora. Isto porque O Rei do Inverno é um livro mais bélico do que qualquer outra coisa. O seu ponto forte são as batalhas épicas travadas entre o exército de Artur e os saxões que se recusam a conhecer o reinado de Mordred, que aquele jurou proteger. Para além desses momentos de enorme suspense e grandiosidade, O Rei do Inverno não oferece tanta intriga quanto isso, escusando-se a explorar, com suficiente densidade, as motivações das suas personagens.

A trama da autoria de Cornwell é contada e vivida por homens. Aqui, Morgana e Viviana veem-se reduzidas a papéis secundários de vítimas, conselheiras e, eventualmente, vingadoras. A sua ira não tem efeitos verdadeiramente determinantes ou catalizadores dos eventos que dão corpo à lenda Arturiana. Esse papel cabe ao próprio Artur que surge, visto pelos olhos do nosso narrador, Derfel, como um herói que espoletou uma guerra por amor, e a Merlim, velho excêntrico e calculista, sem especial lealdade a ninguém.

Os eventos d’O Rei do Inverno revolvem a morte do Rei Uther e a luta pelo poder que, consequentemente, se desencadeia. Uther morreu sem filhos legítimos vivos sendo que o seu único herdeiro é Mordred, o neto recém-nascido que se encontra refugiado em Avalon ao cuidado de Morgana e Nimue, mais tarde conhecida como Viviane. A Bretanha é palco da guerra entre os saxões e os bretões sendo que estes últimos não estão dispostos a ser liderados por uma criança. Assim, são várias as movimentações bélicas e políticas em curso sendo que, para alguns, a morte de Mordred é inevitável para que possa ser estabelecido um império forte e capaz de lutar contra os invasores saxões. Com o objetivo de proteger o meio-irmão e garantir a sucessão de Uther, Arthur regressa do campo de batalha e assume, ainda que oficiosamente, o lugar do pai. A partir daqui vários eventos se desenrolem sendo que tudo nos é contado por Derfel, aliado leal e importante de Arthur.

Derfel é um narrador pouco confiável porque faz parte dos eventos que nos retrata sendo, nessa medida, evidente o seu julgamento moral e emocional das personagens e dos diferentes acontecimentos que se vão sucedendo. Por exemplo, é patente a sua antipatia por Guinevere, esposa de Arthur, a paixão por Nimue ou a admiração cega por Arthur. Mas este elemento pessoal da narração só enriquece a história de Bernard Cornwell que, sem dúvida, domina completamente a sua arte. Ler O Rei do Inverno é como ver um filme. As descrições. os diálogos e as personagens são vívidas e cativantes deixando-nos com vontade de ler capítulos e capítulos. Pessoalmente, talvez com exceção d’O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien, não me recordo de ler conflitos bélicos tão bens escritos como aqueles que nos traz Cornwell. O tom, a atmosfera e a violência são servidos em doses perfeitas perfazendo cenas épicas que, sem sombra de dúvida, são o melhor d’O Rei do Inverno.

Como já referi, As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley fazem parte dos livros da minha vida. A Morgana é capaz de ser minha personagem favorita de sempre. Por isso, gostava de a ter visto mais n’O Rei do Inverno. Havia espaço para isso, mas Cornwell preferiu um olhar mais masculino (é certo que Nimue tem destaque, mas não é determinante). Confesso que senti falta da real força destas personagens, o que contribuiu para uma certa sensação de ausência. Isto é, senti que o problema d’O Rei do Inverno não estava no que tinha, mas sim no que não tinha, no caso, personagens femininas de seu próprio direito com real impacto. Ainda assim, é um bom livro e acho que agradará a fãs da lenda e de romances épicos com conflitos bélicos e alguma intriga política.

O Rei do Inverno é o primeiro volume da Trilogia dos Senhores da Guerra de Bernard Cornwell que nos oferece um olhar realista sobre as histórias à volta do Rei Artur. Trata-se de uma obra de ficção histórica onde a magia não passa de um truque ou da explicação mais simples para fenómenos que ainda não eram justificados há luz da ciência. Bretões e saxões ou cristãos e druidas, o conflito é a grande sombra e força do livro de Cornwell que, além de saber escrever, conhece muito bem a história que nos vem contar!

Já leram? Curiosos?

Sobre o livro:

” Uther, Rei Supremo da Bretanha, morreu, deixando o seu neto Mordred como único herdeiro. Artur, o seu tio, um leal e dotado senhor de guerra, governa como regente numa nação que mergulhou no caos – ameaças surgem dentro das fronteiras dos reinos britânicos, enquanto exércitos saxões preparam-se para invadir o território.

Na luta para unificar a ilha e deter o inimigo que avança contra os seus portões, Artur envolve-se com a bela Guinevere num romance destinado a fracassar. Poderá a magia do velho mundo de Merlim ser suficiente para virar a maré da guerra a seu favor?

O primeiro livro da Triologia dos Senhores da Guerra de Bernard Cornwell lança uma nova luz sobre a lenda arturiana, combinando mito com rigor histórico e as proezas brutais nos campos de batalha.”

Queres ler este livro? Podes comprá-lo aqui, e ajudar a página a crescer, ou requisitar numa biblioteca perto de ti.

Boas Leituras!

Daniela

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